A CNC 3018 chega da China com um pendrive, um programa chamado Candle e nenhuma explicação. É ele que abre o G-code, conversa com a placa GRBL e manda a máquina cortar — e é nele que o primeiro trabalho costuma se perder. Aqui estão o link oficial, a versão conferida em 26 de setembro de 2026 com tamanho e SHA-256, a instalação por sistema e os cinco erros que aparecem antes do primeiro corte sair certo.

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O que o Candle faz na CNC 3018 — e o que ele não faz

É um programa de código aberto (GPL-3.0) escrito em Qt que controla máquinas CNC com controlador GRBL. Pela documentação oficial, opera fresadoras de até 4 eixos e plotters a laser: carrega e edita o G-code, desenha o percurso na tela, varre um mapa de irregularidades da superfície e corrige o programa por ele, envia tudo para a máquina, mostra o estado do controlador e faz o comando manual, o jog.

O que ele não é: não gera G-code — quem desenha a peça é o CAM (Inkscape, FlatCAM, Fusion) — nem é o firmware: quem interpreta cada linha e move os motores é o GRBL gravado na placa. Quase todo problema que o iniciante chama de “bug do Candle” é configuração do GRBL, e o próprio repositório avisa isso antes de você abrir um chamado.

Download oficial: só o GitHub do projeto

Endereço oficial, e mais nenhum: github.com/Denvi/Candle/releases — programa que comanda uma fresa girando a 10.000 rpm não se baixa de site de terceiro. A versão atual é a 11.2, de 9 de fevereiro de 2026. Baixamos os quatro arquivos aqui e calculamos os hashes:

Sistema Arquivo Tamanho SHA-256 (conferido por nós)
Windows (instalador) candle-11.2.msi 18.542.592 bytes 434c3435…f1c367
Windows (portátil) candle-11.2-portable.zip 21.972.477 bytes 2d20081c…d696e5
Ubuntu/Debian (amd64) candle-11.2.deb 8.537.950 bytes 52b6c4f3…ec2ae0
macOS candle-11.2.dmg 29.640.377 bytes d6d1f8c4…4683dc7

Os quatro bateram com o hash que o próprio GitHub publica ao lado de cada arquivo. E confira mesmo, porque nenhum dos instaladores é assinado digitalmente: abrimos o executável do pacote portátil e a tabela de certificados está zerada; o .msi também não traz assinatura. Daí o aviso do SmartScreen e a implicância de alguns antivírus — sem assinatura, o SHA-256 é a única conferência que sobra.

Página oficial de releases do Candle no GitHub mostrando a versão 11.2 como Latest e a lista de versões anteriores
A página oficial de releases capturada por nós em 26/09/2026: a 11.2 marcada como Latest, o SHA-256 ao lado de cada arquivo e, na coluna da esquerda, o salto da 1.2b direto para a 10.9. Captura nossa.

O achado: a versão que todo tutorial manda baixar é de 2016

O Candle passou cinco anos e onze meses sem um lançamento — a 1.2b saiu em 30 de outubro de 2019 e a seguinte, a 10.9, só apareceu em 23 de setembro de 2025. Nesse intervalo o projeto virou “programa abandonado” e os tutoriais congelaram. Depois da volta vieram quatro lançamentos em cinco meses, com compilações novas até agosto de 2026.

O número mostra o tamanho da inércia. Somando todos os lançamentos, o projeto tem 1.159.422 downloads; o Candle_1.1.7.zip, de 2016, responde sozinho por 616.244 — mais da metade. O portátil da 11.2 tem 12.685; o instalador, 6.366. E não é culpa do leitor: o próprio arquivo de instruções do projeto lista a 1.1.7 em “versões anteriores”, de onde os tutoriais brasileiros copiaram o link.

Regra prática: máquina com GRBL 1.1 — o caso de praticamente toda 3018 vendida hoje — roda a versão atual. A 1.1.7 é plano B, e a 1.0.11 serve só para firmware GRBL 0.9 ou anterior. A versão nova ainda fala com controladores grblHAL e traz manual embutido no menu Ajuda, que a de 2016 não tinha.

Instalação, por sistema

Os requisitos estão na documentação e são modestos: processador com SSE2, vídeo com OpenGL 2.0 e 120 MB livres. O OpenGL é o único que costuma travar gente — é ele que desenha o percurso em 3D. Há pacote pronto para Windows, Ubuntu/Debian e macOS; no Raspberry Pi OS Trixie o projeto declara suporte, mas por compilação.

Windows. Baixe o .msi, confira o hash, execute e aceite o aviso do SmartScreen (Mais informações → Executar assim mesmo). Se o instalador não completar, use o candle-11.2-portable.zip: extraia a pasta Candle onde quiser e rode o candle.exe. Portátil é o formato ideal para o notebook que vai até a máquina.

Linux (Ubuntu/Debian). Instale com sudo apt install ./candle-11.2.deb — o ./ na frente é o que faz o apt resolver dependências. São nove bibliotecas Qt 5 (porta serial, script, websockets, multimídia, ajuda e SQLite), todas no repositório universe, do Ubuntu 22.04 ao 26.04. Depois, acrescente seu usuário ao grupo de acesso à porta serial e reabra a sessão; sem isso a porta aparece na lista e recusa abrir.

macOS. O .dmg é compilado para Intel; em Mac com Apple Silicon roda por tradução, via Rosetta 2 — o pedido de compilação nativa em ARM foi aberto em 17 de setembro de 2026 e segue sem resposta. Como o pacote não é assinado, o Gatekeeper barra na primeira execução.

Conectar sem susto: porta, 115200 e o “Idle”

Ligue a máquina, conecte o cabo e abra Serviço → Configurações. Escolha a porta e deixe a velocidade em 115200, padrão do Candle e a velocidade compilada no GRBL 1.1 — está no código-fonte do firmware. Conexão certa é a que faz o campo Status mostrar Idle; qualquer outra coisa ali é problema, não é “só esperar”.

Com o Idle na tela, mande $$ no console. O manual do Candle lista os parâmetros que afetam o funcionamento: $5 e $6 (fim de curso e sonda), $10 (o que o controlador reporta), $22 e $23 (referenciamento), $30 e $31 (faixa de rotação, que precisa casar com a rotação máxima do próprio Candle, que vem com 10.000 rpm), $100 a $102 (passos por milímetro), $110 a $112 (velocidades máximas), $120 a $122 (aceleração) e $130 a $132 (área de trabalho, usada no jog). Mudou algo com $CODIGO=VALOR? Dê Reset no painel de controle.

Dois mordem mais: $100 a $102 errados fazem a máquina cortar um quadrado de 20 mm com 17 mm — o desenho está certo, a escala não; e $30 fora da faixa faz o spindle ignorar a rotação pedida no G-code.

O primeiro corte sem quebrar broca

A sequência que evita prejuízo é sempre a mesma. Fixe o material com grampos (fita dupla-face solta no meio do corte). Leve a ferramenta ao canto da peça pelo jog e zere X e Y. Desça o Z até encostar — o truque da folha de papel ainda é o melhor método manual — e zere o Z. Carregue o arquivo e olhe o percurso desenhado: se ele sai da área, o problema é o zero, não a máquina.

Antes do corte de verdade, faça o ensaio no ar: suba o Z uns 5 mm e rode o programa acima da peça. Aí sim, zere de novo e aperte Send — o estado deve virar Run. Durante o trabalho há quatro freios, e a diferença importa: Pause para de enviar linhas; Hold congela a máquina na hora, no próprio controlador, e permite ligar e desligar o spindle; Abort encerra o envio; Reset para tudo. Há ainda o ajuste ao vivo de avanço e rotação — é por ali que se salva um corte que está forçando, sem abortar.

Para fresar placa de circuito entra o recurso que justifica o programa: o mapa de altura. A fresagem de PCB acontece a profundidades de centésimos de milímetro, e nenhuma placa é plana o bastante. O Candle sonda a superfície numa grade (o exemplo oficial usa 3×4 pontos, altura segura de 5 mm, sondagem de −1 mm e avanço de 50 mm/min) e deforma o G-code para acompanhar a ondulação. Sem ele, metade da placa sai sem cortar e a outra com a fresa enterrada.

Macrofotografia de uma placa de circuito impresso fresada, com os sulcos de isolação entre as trilhas de cobre
Placa fresada vista de perto: o cobre é a área clara e os sulcos escuros são o caminho aberto pela fresa para isolar as trilhas. Nessa escala, três centésimos de milímetro de diferença na altura da placa já cortam cobre demais ou de menos — é o problema que o mapa de altura resolve. Foto de 2018 de Nicola Corna, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

A Robooster, nossa parceira, é de máquinas para marcenaria — coladeiras de borda — e não vende CNC de bancada: a recomendação abaixo é isenta. São os dois itens que evitam a maior parte dos acidentes no primeiro trabalho:

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Os cinco problemas mais comuns

1. A porta COM não aparece na lista. O problema é anterior ao Candle: é o conversor USB-serial da placa sem driver. Na maioria das controladoras de 3018 ele é o CH340 — o mesmo do driver CH340 que já guiamos aqui; confirme no Gerenciador de Dispositivos qual chip apareceu. Se a porta existe e o Candle não consegue abrir, teste com um terminal serial a 115200: se ele também não abrir, é a porta (ocupada por outro programa) ou o cabo — foi essa a receita dada num chamado clássico de 3018, em 2020.

2. Conectou, mas o estado é Alarm e nada anda. É o GRBL travado, não o Candle: qualquer comando nesse estado devolve error:9, que na tabela oficial é “comandos de G-code bloqueados durante alarme”. Destrava com $X, mas o que interessa é a causa. Alarme 1 é fim de curso batido; alarme 2 é limite de software, e a documentação diz que esse pode ser destravado com segurança; alarme 9 é “não encontrou o fim de curso” — o clássico da 3018 que veio com $22=1 sem ter sensor nenhum. Máquina sem sensor: $22=0.

3. O programa para no meio com error:20. Quase sempre é a linha M6, de troca de ferramenta, que o CAM gerou: o GRBL 1.1 não implementa M6, e error:20 é “comando de G-code não suportado”. Num chamado de junho de 2024 o mantenedor respondeu com todas as letras que mandar “Ignorar” é a resposta segura e correta nesse caso. Com uma ferramenta só, dá também para tirar a linha no CAM.

4. O instalador não instala, ou a janela abre em branco. Dois chamados abertos em setembro de 2026, sem resposta até agora: num deles o .msi mostra “aguarde enquanto o Windows configura o Candle” e some sem instalar nada; no outro, no Windows 11, a janela abre com a moldura e o miolo vazio. O contorno nos dois casos é o pacote portátil, que não passa pelo instalador; para a tela em branco, atualize o driver de vídeo, já que o percurso é desenhado por OpenGL.

5. Trava no meio do trabalho, sempre em pontos diferentes. O diagnóstico mais bem documentado do projeto não é software: é interferência eletromagnética no cabo USB. Um usuário que mantém dezesseis máquinas rastreou o travamento até o motor do spindle acoplando ruído no cabo, e resolveu encurtando o cabo e afastando a eletrônica da máquina. Se o seu trava e o cabo é longo, comece por aí.

Perguntas frequentes

O Candle serve para máquina a laser? Serve: a documentação cita plotters a laser e o programa tem campos próprios de potência. Para gravação com imagem em tons de cinza, porém, o programa mais usado é outro — assunto do próximo guia.

Dá para fresar minhas próprias placas? Dá, com mapa de altura e fresa de gravação — a placa do 555 da nossa série de circuitos é do tamanho certo para começar. Lembrando o que a placa tem por dentro: fresagem isola trilha em face única; furo metalizado e via não saem em casa.

O Candle atualiza sozinho? Não há atualização automática — é parte da razão de tanta gente seguir em 2016 sem saber. Marque uma visita à página de releases a cada seis meses.

O resumo que cabe na bancada

O Candle é o programa certo para a 3018 — só que a versão certa não é a do tutorial que veio com a máquina. Baixe do GitHub do projeto, confira o SHA-256 porque não há assinatura digital, deixe a porta em 115200 e não aceite nada diferente de Idle. Leia o $$ uma vez com calma: aqueles parâmetros explicam quase todo comportamento estranho que se atribui ao programa. E faça o ensaio no ar — broca quebrada custa mais que os dois minutos que ele leva.

No próximo guia a mesma máquina troca de cabeça: o LaserGRBL, o programa de gravação a laser — instalação, driver e o primeiro trabalho sem queimar a peça.

Veja também

Se a próxima pergunta for “a placa que eu fresei não funciona, e agora?”, o Mapa da Placa é o nosso material de leitura de placa — vale conhecer.