Este circuito com 555 faz duas coisas que qualquer bancada precisa mais cedo ou mais tarde: acender um LED por um tempo certo depois que você aperta um botão, e fazer esse mesmo LED piscar sozinho no ritmo que você escolher. Serve como temporizador de bancada, sinalizador, base de tempo para testar entradas digitais e — na versão que pisca — como gerador de pulso para sacudir um circuito mudo. O nível é iniciante: se você sabe ler o código de cores de um resistor e distinguir a perna comprida do LED, monta hoje.
O coração de tudo é o 555, em linha desde 1973 e ainda custando centavos. Os dois circuitos abaixo saíram do datasheet da Texas Instruments — xx555 Precision Timers, documento SLFS022K, revisado em março de 2026 — e foram conferidos por nós em simulação antes de virarem post.
O que você vai precisar
A lista serve para os dois circuitos. Só dois resistores mudam de valor quando você troca de modo, e a tabela mostra qual é qual.
| Ref. | Componente | No astável | No monoestável | Tolerância / potência / tensão | Qtd. |
|---|---|---|---|---|---|
| U1 | CI temporizador NE555, encapsulamento DIP-8 | NE555 | NE555 | 4,5 V a 16 V | 1 |
| R1 | Resistor de filme | 10 kΩ | 1 MΩ | ±5%, 1/4 W | 1 |
| R2 | Resistor de filme | 68 kΩ | 10 kΩ (pull-up do botão) | ±5%, 1/4 W | 1 |
| R3 | Resistor de filme (limita o LED) | 470 Ω | 470 Ω | ±5%, 1/4 W | 1 |
| C1 | Capacitor eletrolítico | 10 µF | 10 µF | 16 V ou mais | 1 |
| C2 | Capacitor cerâmico (marcado 103) | 10 nF | 10 nF | 50 V | 1 |
| D1 | LED vermelho de 5 mm | sim | sim | ≈ 12 mA no circuito | 1 |
| S1 | Botão de pressão (NA) | — | sim | — | 1 |
| B1 | Bateria de 9 V com clipe | sim | sim | 9 V | 1 |
Some uma protoboard e uns quatro jumpers. Nada aqui passa de um punhado de reais.

Como funciona, estágio por estágio
Abra o 555 e você encontra três blocos. O primeiro é um divisor de três resistores iguais de 5 kΩ ligados entre a alimentação e o terra — é dele que vem o nome do CI. Esse divisor cria dois níveis de referência: 1/3 da alimentação e 2/3 da alimentação. Com 9 V, isso dá 3,00 V e 6,00 V.
O segundo bloco são dois comparadores. Um vigia o pino 2 (TRIG) contra o nível de 1/3; o outro vigia o pino 6 (THRES) contra o nível de 2/3. A saída deles comanda o terceiro bloco, um flip-flop que só tem dois estados: saída alta ou saída baixa. Quando a saída está baixa, um transistor interno liga o pino 7 (DISCH) ao terra e descarrega o capacitor. É esse vaivém que produz o tempo.
Modo monoestável: um pulso por toque
Em repouso, o transistor de descarga segura C1 perto de zero e a saída fica baixa. Você aperta S1, o pino 2 cai abaixo de 1/3 da alimentação, o flip-flop vira, a saída sobe e o transistor solta o capacitor. C1 carrega então através de R1 até chegar a 2/3 da alimentação — e nesse instante o comparador de cima derruba tudo de volta. A duração do pulso, conforme a seção 6.3.1 do SLFS022K (página 11), é:
tw = 1,1 × R1 × C1 → 1,1 × 1 000 000 Ω × 0,000010 F = 11 segundos
Modo astável: piscando sozinho
Ligue o pino 2 no pino 6 e acrescente um segundo resistor, e o circuito passa a se disparar sozinho. C1 carrega por R1 + R2 e descarrega só por R2, o que explica por que o tempo ligado é sempre maior que o desligado. Da seção 6.3.2 (página 12):
- tH = 0,693 × (R1 + R2) × C1 = 0,693 × 78 kΩ × 10 µF = 0,54 s (LED aceso)
- tL = 0,693 × R2 × C1 = 0,693 × 68 kΩ × 10 µF = 0,47 s (LED apagado)
- f = 1,44 / ((R1 + 2·R2) × C1) = 1,44 / (146 kΩ × 10 µF) = 0,99 Hz
- Ciclo de trabalho = (R1 + R2) / (R1 + 2·R2) = 53%
Repare num detalhe elegante que o datasheet faz questão de sublinhar: os limiares e a velocidade de carga são ambos proporcionais à alimentação. Resultado: o tempo não muda se a bateria cair de 9 V para 7 V. Só o brilho do LED cai.
O circuito com 555: os dois esquemas


Note o C2 de 10 nF pendurado no pino 5 nos dois desenhos: o datasheet o recomenda em nota de rodapé, e ele evita que ruído da alimentação bagunce o tempo.
Montagem
Ordem que funciona bem na protoboard:
- Primeiro o CI. Encaixe o 555 montado a cavalo sobre o canal central, com a marca (o meio-círculo ou o ponto) para a esquerda. O pino 1 é o primeiro à esquerda embaixo; a contagem segue no sentido anti-horário visto de cima.
- Depois a alimentação. Pino 8 e pino 4 no trilho positivo, pino 1 no negativo. O pino 4 é o RESET: solto, ele capta ruído e o circuito trava sem explicação.
- Em seguida a rede de tempo (R1, R2 e C1) e o C2 do pino 5.
- Por último a saída: R3 do pino 3 e o LED com o catodo — a perna curta, do lado do chanfro — para o terra.
Cuidados: o eletrolítico C1 tem polaridade (a faixa marca o negativo, que vai para o terra); o LED também. Nenhum componente aqui deveria esquentar — se você encostar o dedo no 555 e ele estiver morno, desligue e procure curto antes de continuar. E confira o trilho de alimentação da protoboard: em muitas placas ele é interrompido no meio.
Tensões esperadas
Os valores abaixo saíram da nossa simulação do circuito astável com 9 V, medidos nos mesmos pontos em que você vai encostar a ponta de prova.
| Ponto | Valor esperado | Observação |
|---|---|---|
| Pino 8 (VCC) | 9,00 V | direto da bateria |
| Pino 1 (GND) | 0 V | referência de tudo |
| Pino 4 (RESET) | 9,00 V | ligado ao positivo |
| Pino 5 (CONT) | 6,00 V | 2/3 da alimentação — estável |
| Pinos 2 e 6 (C1) | oscila entre 3,00 V e 6,00 V | o display vai dançar; é isso mesmo |
| Pino 3 (saída) | 7,65 V aceso / 0,05 V apagado | a queda de ~1,3 V no nível alto é normal |
| Pino 7 (DISCH) | 8,6 V carregando / 0,01 V descarregando | segue o estado da saída |
| Consumo total | 4,0 mA a 15,4 mA | o pico é com o LED aceso |
Medido em simulação; na bancada aceite ±10%. Uma bateria de 9 V usada costuma entregar 8,4 V, e todos os valores acima descem junto — proporcionalmente.

Onde costuma dar errado
- Componente invertido. Eletrolítico ao contrário esquenta e estufa; LED ao contrário simplesmente não acende e não dá nenhum outro sintoma. Nos dois casos o circuito parece “morto” sem estar queimado.
- O pino 4 solto. É o erro campeão. O RESET solto funciona na bancada e para de funcionar quando você encosta a mão perto. Ele tem que ir ao positivo.
- Esquentando. O 555 aguenta 200 mA na saída, mas um LED sem o resistor de 470 Ω passa muito disso. Se o CI esquenta, o suspeito número um é R3 ausente ou mal encaixado.
- Ruído e tempo instável. Sem o C2 no pino 5, ou com bateria fraca, o tempo varia de ciclo para ciclo; um eletrolítico de 100 µF entre o pino 8 e o terra resolve o que sobrar.
- Alimentação. Abaixo de 4,5 V o 555 comum sai da especificação. Nada de tentar rodar em 3,3 V — para isso existe a versão CMOS (TLC555).
Variações
- Pisca mais rápido: troque C1 de 10 µF por 1 µF e a frequência sobe dez vezes, para cerca de 9,9 Hz. Com 100 nF, chega a 99 Hz e o LED parece aceso de vez — aí você já tem um gerador de sinal para injetar em circuitos.
- Temporizador mais curto: no monoestável, troque R1 de 1 MΩ por 100 kΩ e o pulso cai de 11 s para 1,1 s. Passar muito de 1 MΩ é possível, mas a fuga do eletrolítico começa a competir com a carga e o tempo fica impreciso.
- Quase 50% de ciclo: no astável, use R1 bem menor que R2 — com R1 de 1 kΩ e R2 de 68 kΩ, o ciclo cai para 50,4% e o pisca fica simétrico.
Antes de ligar
Este é um circuito do próprio fabricante, conferido por nós em simulação — não um projeto de fórum. Ainda assim, o carimbo de “montado e testado na bancada” nós só damos quando montamos de verdade. Se você montar, mande a foto para a Saber — a gente publica.
Veja também
Quer ir além de montar e começar a consertar? O Mapa da Placa é onde a gente ensina a ler uma placa inteira — não só um circuito por vez.
Fonte técnica: Texas Instruments, NA555, NE555, SA555, SE555 — xx555 Precision Timers, documento SLFS022K (setembro de 1973, revisado em março de 2026), seções 6.3.1 e 6.3.2, páginas 11 e 12. Simulação própria em ngspice 42, com subcircuito comportamental do 555 escrito a partir da descrição funcional do mesmo documento — não é o modelo de silício da TI. Última verificação: 15 de setembro de 2026.
