O NeoProgrammer é o programa que a maioria dos técnicos brasileiros acaba usando com aquela plaquinha CH341A de 40 reais — e é um dos downloads mais confusos da bancada: não existe site oficial, o programa parou em 2021 e circulam arquivos diferentes com o mesmo número de versão. Baixamos os três pacotes mais comuns, comparamos byte a byte e medimos o que muda de um para o outro. Aqui está o resultado, a instalação e os cinco problemas que mais travam o serviço.

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O que é o NeoProgrammer — e por que ele existe

É um programa de Windows que conversa com gravadores baratos de memória: o CH341A (a plaquinha USB com soquete ZIF) e o USBasp. Com ele você identifica o chip, lê, salva o backup, apaga e grava — BIOS de notebook, firmware de TV, EEPROM de painel e de módulo automotivo.

Ele nasceu como um primo do AsProgrammer, que é aberto e gratuito, mas seguiu por conta própria e fechado. O autor se identifica apenas como TTAV134 — é o nome gravado dentro do executável, que conferimos abrindo o arquivo. Costuma-se dizer por aí que ele é russo; os arquivos sugerem francês: o histórico de alterações em inglês tem frases inteiras em francês (“AVR SPIEN plus codé en dur”), a legenda da lista de chips é “Adaptateur requis” e a documentação vem em inglês, francês e russo.

Onde baixar o NeoProgrammer: a parte que ninguém conta

Não há site oficial. Nunca houve. A distribuição sempre foi por postagem de fórum, boa parte exigindo cadastro para ver o anexo — e é esse vácuo que enche a primeira página do Google de download embrulhado em propaganda. Como a Saber não re-hospeda binário de programa fechado, o caminho honesto é outro: use um espelho público no GitHub, onde o arquivo fica à vista, e confira o que baixou pelo número de identificação do arquivo. Foi o que fizemos com os três pacotes que mais aparecem — um deles mantido por brasileiros, com as pastas em português:

Tabela comparando três pacotes de NeoProgrammer 2.2.0.10 quanto a tamanho, programa, banco de chips e biblioteca
Medição nossa, feita em 5 de outubro de 2026: os três pacotes têm o mesmo nome de versão, mas só o programa é igual nos três. O banco de chips é diferente em cada um.

O resultado tranquiliza de um lado e acende a luz do outro. O programa é rigorosamente o mesmo nos três: 4.214.272 bytes, mesma identificação SHA-256 (36fed4ee…b87e717). Se o seu arquivo bate com esse número, você tem o NeoProgrammer que todo mundo tem. Se não bate, desconfie.

Já o resto do pacote varia. Os dois repaginados trazem um recado do próprio repaginador (“Powered By Khan Dish Network”), que não é do autor e não faz nada — mas prova que a pasta foi aberta e mexida. E o de dezembro de 2023 troca a biblioteca CH341DLL.DLL: no original ela é de 2008 e sem assinatura digital; nele, é a 2.20 da própria WCH, de junho de 2022 e assinada. Nesse ponto, o repack é melhor que o original.

O programa parou em 2021 — a lista de chips, não

A última versão é a 2.2.0.10, e o histórico do autor registra, para ela, uma única linha: “Fixed I2C detection bug”. Depois disso, silêncio. Na pasta ainda vem um chiplist.zip intocado desde 4 de outubro de 2021 — a cópia de segurança da versão anterior, útil se algo der errado.

Só que o reconhecimento de chip não mora no programa. Mora em dois arquivos de dados ao lado dele: chiplist.dat e Import.xml. E esses continuaram crescendo, pelas mãos de uma comunidade chinesa que anota as inclusões com data dentro do próprio arquivo. Contamos as definições de chip nos três pacotes: 93 no original do autor, 366 no de julho de 2023 e 403 no de dezembro de 2023 — 310 chips que o autor nunca viu, com registros datados até 25 de dezembro de 2023, entre eles GigaDevice GD25LB128, KIOXIA TC58CVG e FMSH FM25S02A.

É essa a resposta para a pergunta que traz quase todo mundo até aqui: quando o seu chip “não é reconhecido”, o problema raramente é a versão do programa — é a idade do banco de dados. Baixar um pacote mais novo, ou só substituir esses dois arquivos, resolve mais do que reinstalar.

Onde o NeoProgrammer lê e o AsProgrammer desiste

Essa é a comparação que vale a pena fazer com número na mão, porque os dois programas servem ao mesmo gravador. Contamos as duas listas: a do NeoProgrammer, no arquivo devicelist.txt, e a do AsProgrammer, no chiplist.xml da versão de hoje do repositório oficial.

Tabela comparando a quantidade de chips suportados por família de memória no NeoProgrammer e no AsProgrammer
Contagem nossa, feita hoje nos arquivos de lista dos dois programas. Para BIOS e firmware, empate. A diferença aparece nas memórias pequenas.

Em memória SPI — a BIOS do notebook, o firmware da TV — dá empate prático: os dois leem. A diferença está embaixo. O AsProgrammer trata I2C e Microwire de forma genérica: doze entradas de 24Cxx escolhidas por capacidade e seis de 93Cxx. O NeoProgrammer tem 127 entradas Microwire de doze fabricantes, incluindo as que fogem do padrão: Rohm BR90xx, Sony CXK, Mitsubishi M6M, Oki MSM, Toshiba TC89, AKM AK93C, as ER59xx. São as EEPROM de painel de instrumentos, de módulo de som, de aparelho antigo — o serviço que paga a conta na bancada brasileira.

Repare num detalhe: cada chip Microwire aparece duas vezes, _8bits e _16bits. É a organização da palavra, que precisa ser escolhida à mão. Se você leu um 93C46 e o arquivo saiu embaralhado, foi aqui que errou — não no gravador.

Instalação, passo a passo

Não existe instalador: descompacte a pasta onde quiser e rode o NeoProgrammer.exe. Como o arquivo não tem assinatura digital — conferimos, a tabela de certificados do executável está vazia —, o Windows vai avisar que não conhece o autor. Esse aviso é esperado e vai aparecer sempre. É por isso que conferir a identificação do arquivo importa tanto.

O driver é o passo que trava mais gente, e aqui vai um achado desta apuração: o driver que vem dentro do pacote é de 2009. O arquivo de instalação declara DriverVer 06/05/2009, o módulo foi compilado em junho daquele ano, e o certificado que assina o catálogo é SHA-1 e venceu em 15 de setembro de 2019. Em Windows 10 e 11 de 64 bits, isso é pedir para falhar. Não instale esse: pegue o atual na página oficial do CH341PAR, na WCH. Aviso prático: o site deles é um aplicativo em JavaScript e não entrega link direto — o download só sai clicando na página.

Com o driver certo e a plaquinha no USB, o programa deve mostrar o gravador conectado. Aí é encaixar o chip no soquete — pino 1 do lado da trava, sempre — e mandar detectar.

Vista superior de uma placa gravadora CH341A USB com soquete ZIF preto de 16 pinos
A plaquinha que o programa comanda: um CH341A USB com soquete ZIF. Foto de RAIL P (RAIL.PHOTOGRAPHY), via Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

Os cinco problemas mais comuns — e a correção

1. O Windows bloqueia o programa. Esperado: o executável não é assinado e o autor some do mapa desde 2021. Confira o número SHA-256 do arquivo antes de liberar. No Windows, pelo prompt: certutil -hashfile NeoProgrammer.exe SHA256. Tem de dar 36fed4ee…. Deu outro número, apague e baixe de outro lugar.

2. O driver não instala. Quase sempre é a tentativa de usar o driver de 2009 que vem na pasta, com certificado vencido em 2019. Use o CH341PAR atual da WCH, como explicamos acima.

3. O chip não é detectado, ou o identificador volta zerado. Antes de culpar o programa, é tensão. O próprio autor documenta num PDF dentro do pacote: na versão preta da plaquinha, o soquete recebe 3,3 V de um regulador, mas o chip CH341A e os pinos de sinal continuam em 5 V. Quase sempre não dá problema; em memórias que não toleram 5 V — ele cita cFeon, XTX e XMC — dá. E há o contrário: dos 1.629 dispositivos da lista, 116 são marcados como de 5 V e 206 como de 1,8 V. Chip de 1,8 V exige adaptador, ponto final; não há ajuste de programa que resolva.

4. A leitura sai embaralhada num 93Cxx. Organização de palavra errada: escolha a outra entrada, _8bits ou _16bits, e leia de novo. Alguns chips da lista — 35 deles, contamos — vêm marcados “NO detection”: não há como detectar automaticamente, você tem de escolher o modelo na mão e saber o que encaixou.

5. Chip novo que não aparece na lista. É o caso do banco de dados velho. Troque o chiplist.dat e o Import.xml por um pacote mais recente, guardando os antigos. A mesma plaquinha, com o mesmo programa, passa a reconhecer chip que recusava.

Duas compras que mudam o rendimento dessa bancada — e evitam metade dos problemas acima:

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Perguntas frequentes

O NeoProgrammer é gratuito? Sim, e sempre foi. Não existe versão paga nem licença publicada — o código é fechado, mas o uso é livre. Qualquer site cobrando por ele está vendendo o que é de graça.

Qual é melhor: NeoProgrammer ou AsProgrammer? Para BIOS e firmware em memória SPI, use o AsProgrammer: é aberto, continua recebendo correção e você sabe de onde vem. Para EEPROM pequena, Microwire fora do padrão, FRAM e AVR, o NeoProgrammer lê o que o outro nem lista. Vale ter os dois na pasta de ferramentas.

Funciona no Linux ou no Mac? Não. É programa de Windows, sem versão para outros sistemas. No Linux, o caminho é o flashrom, que fala com a mesma plaquinha.

Dá para gravar BIOS com a placa ligada? Com a garra de teste, lendo chip soldado, funciona em muitos casos — desde que o aparelho esteja fora da tomada e sem bateria. Em placa de notebook, a alimentação do resto do circuito costuma atrapalhar; aí é dessoldar.

Preciso atualizar para a versão mais nova? Não existe: a 2.2.0.10, de 2021, é a última. O que vale atualizar é a lista de chips.

O resumo que cabe na bancada

O NeoProgrammer é software terminado — não espere correção nem versão nova. Confira o SHA-256 do que baixar, descarte o driver de 2009 da pasta, mantenha a lista de chips em dia e lembre que a plaquinha entrega uma tensão só. Para o serviço de todo dia em memória SPI, o AsProgrammer é mais seguro. Para a EEPROM esquisita do painel que ninguém mais lê, é o NeoProgrammer que resolve — e é por isso que ele não sai da bancada.

A ponte natural já está no ar: o flashrom, que faz esse mesmo trabalho pelo Linux e pelo Raspberry Pi, com a mesma plaquinha de 40 reais e sem depender de programa fechado.

Veja também

Se a sua próxima pergunta for sobre a placa que está na bancada esperando — qual chip ler primeiro e por onde começar a medir —, o Mapa da Placa é o nosso material de leitura de placa; vale conhecer.