Usar o minipro no Linux é a forma de pôr as gravadoras da XGecu — TL866CS, TL866A, TL866II+, T48, T56 e T76 — para trabalhar sem o Xgpro e sem Windows: um programa livre, de linha de comando, que lê, grava, apaga e verifica chip. Aqui estão o endereço oficial, a versão que compilamos e medimos em 1º de outubro de 2026, a armadilha do número de versão que não muda, a instalação passo a passo, as permissões de USB e os cinco problemas mais comuns.

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O que o minipro é — e por que ele existe

A explicação está na primeira linha do próprio repositório: “este programa existe porque a XGecu não fornece um programa para uso em Linux ou outros sabores de Unix”. O Xgpro é só Windows. Quem trabalha em Linux tinha duas saídas ruins — máquina virtual ou dual boot — e ganhou uma terceira: um binário de 480 KB que lê, grava, apaga, verifica e testa chip lógico pelo terminal.

Nasceu em 2014, pelas mãos de Valentin Dudouyt, e hoje é coordenado por David Griffith. É software livre sob GPL versão 3, com 488 estrelas e 199 bifurcações no GitLab. O repositório canônico, e mais nenhum, é gitlab.com/DavidGriffith/minipro. Não existe instalador .exe nem site de download com botão verde: o que existe é código-fonte.

A armadilha: a versão não diz nada

Esta é a parte que ninguém conta, e é a razão deste guia. A última versão marcada como estável é a 0.7.4, de 2 de agosto de 2025. De lá para cá o projeto não parou: comparando a etiqueta 0.7.4 com o ramo principal, contamos 48 commits e 49 arquivos alterados, até 21 de setembro de 2026. Catorze meses de trabalho fora de qualquer lançamento — e o número de versão não mudou. Compilamos os dois aqui, na mesma máquina, e o programa se apresenta como “0.7.4” nas duas vezes:

Saída do comando minipro -V comparando a versão 0.7.4 e o ramo principal, com contagens de dispositivos diferentes
Saída real dos dois binários que compilamos nesta quinta-feira, reproduzida em tipografia de terminal. Mesmo número de versão, treze meses de diferença entre os commits — e um programador inteiro a mais. Captura da Saber da Eletrônica.

O que muda de verdade, medido por nós no minipro -V dos dois binários:

Gravadora 0.7.4 (ago/2025) Ramo principal (set/2026)
TL866A/CS 14.162 dispositivos 14.162
TL866II+ 29.235 29.774
T48 29.200 29.739
T56 31.926 32.513
T76 não existe 34.607
Chips lógicos 283 283
Tamanho do binário 426.320 bytes 493.608 bytes

O T76 — a gravadora USB 3.0 que a XGecu anuncia hoje na página inicial — simplesmente não existe na versão estável: não há t76.c, nem banco de dados, nem regra de permissão para ela. Suporte a eMMC, NAND e SPI-NAND entrou tudo depois do lançamento. A regra prática, então: não confie no número de versão, confie na data do commit. O minipro -V mostra “Commit date” e “Git commit” — são elas que dizem o que você tem na mão.

Página oficial de etiquetas do projeto minipro no GitLab mostrando a versão 0.7.4 de agosto de 2025 como a mais recente
A página oficial de etiquetas do projeto, capturada hoje: a 0.7.4 de 2 de agosto de 2025 ainda é a última marcada. Captura da Saber da Eletrônica em gitlab.com/DavidGriffith/minipro.

Como instalar o minipro no Linux, passo a passo

Antes de tudo, um aviso que economiza meia hora: não existe pacote minipro no Debian nem no Ubuntu. Conferimos hoje a busca oficial dos dois projetos, em todas as versões e arquiteturas: nenhum resultado. Se um tutorial mandar você rodar sudo apt install minipro, ele está errado. Compila-se, e é fácil.

As dependências, conforme o próprio repositório. No Debian e no Ubuntu:

sudo apt install build-essential pkg-config git libusb-1.0-0-dev zlib1g-dev

No Fedora:

sudo dnf install make pkg-config git gcc libusb1-devel zlib-ng-compat-devel

Exige libusb 1.0.16 ou mais nova. Depois, os quatro comandos de sempre:

git clone https://gitlab.com/DavidGriffith/minipro.git
cd minipro
make
sudo make install

Compilamos aqui numa máquina modesta de quatro núcleos: 0,64 segundo com make -j4, sem um único aviso de erro. É um programa pequeno em C — não espere o drama de compilar coisa grande.

Se preferir um pacote de verdade, o repositório traz a receita Debian pronta: com fakeroot, debhelper e dpkg-dev instalados, fakeroot dpkg-buildpackage -b -us -uc gera o .deb — melhor para quem precisa desinstalar limpo depois.

No macOS existe atalho: brew install minipro. Mas repare no que ele entrega — o Homebrew empacota a 0.7.4, a de agosto de 2025. Quem quiser o ramo principal precisa de brew install --HEAD minipro. Pelos números públicos do próprio Homebrew, foram 612 instalações da fórmula em doze meses e apenas 13 com --HEAD: quase todo mundo no macOS está rodando a versão sem T76 sem saber.

As permissões de USB — o passo que todo mundo pula

Instalado, o minipro ainda vai dizer que não achou programadora quando você rodar como usuário comum. Falta a regra de udev:

sudo cp udev/*.rules /etc/udev/rules.d/
sudo udevadm trigger
sudo usermod -a -G plugdev SEU-USUARIO

Só vale depois do próximo login — não adianta só fechar o terminal.

Aqui mora outra diferença entre a estável e o ramo principal, que conferimos arquivo por arquivo. A 0.7.4 instala três arquivos de regra e reconhece só dois aparelhos: 04d8:e11c (TL866A/CS) e a466:0a53 (TL866II+, T48 e T56, que compartilham o mesmo identificador). O ramo principal consolidou tudo num arquivo só, em 11 de julho de 2026, e acrescentou a466:1a86 — o T76. Ou seja: dono de T76 que instalar as regras da versão estável nunca vai usar a gravadora sem sudo, por mais que o programa esteja certo.

Detalhe de quem atualiza: se você já tinha copiado as regras da 0.7.4, os dois arquivos 61-minipro-*.rules continuam lá depois do git pull. Não quebram nada — ficaram inertes, porque dependiam de uma marca que o arquivo novo não cria mais —, mas é lixo. Apague.

Os primeiros comandos

A sintaxe é sempre a mesma: você diz qual é o chip com -p e o que fazer com ele. As aspas no nome não são decoração — sem elas o terminal engole o @.

Objetivo Comando
Ver que gravadora está ligada minipro -k
Procurar um chip na lista minipro -q T48 -L 27C64
Ler só o identificador do chip minipro -p "AT29C256@DIP28" -D
Ler o conteúdo para arquivo minipro -p "AT29C256@DIP28" -r dump.bin
Gravar um arquivo no chip minipro -p "AT29C256@DIP28" -w firmware.bin
Conferir sem gravar minipro -p "AT29C256@DIP28" -m firmware.bin
Checar se está apagado minipro -p "AT29C256@DIP28" -b
Apagar minipro -p "AT29C256@DIP28" -E
Testar um chip lógico minipro -p 7404 -T
Testar o hardware da gravadora minipro -t

Um achado nosso, ao rodar sem nenhuma gravadora na mesa: minipro -l e minipro -L travam num menu interativo perguntando qual banco de dados você quer ver — e isso quebra qualquer script. A saída é o -q, que força a gravadora: minipro -q TL866A -l devolveu aqui 14.497 linhas direto, sem perguntar nada. Vale para TL866A, TL866II, T48, T56 e T76.

Para memória SPI de oito pernas, o -o spi_clock=30 acelera bastante no T48. E ao gravar placa montada, pela porta ICSP, o -o ovc_level levanta o limite de corrente — a placa inteira puxando no trilho derruba a proteção padrão e devolve “Overcurrent protection!”.

Soquete ZIF de 40 pinos com alavanca, do tipo usado nas gravadoras TL866 e T48
O soquete ZIF de 40 pinos com alavanca: é esse o soquete das TL866 e do T48, e é dele que o minipro fala quando a documentação cita “ZIF40”. Foto: SparkFun Electronics, Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

T56 e T76 precisam de uma etapa extra

As gravadoras antigas guardam os algoritmos dentro delas, junto com o firmware. O T56 e o T76 não: têm um FPGA que precisa receber o bitstream do computador. Esses arquivos pertencem à XGecu e não podem ser distribuídos com o minipro — a documentação diz isso com todas as letras. A solução oficial é um script que baixa o pacote da fabricante e extrai só o que interessa:

sudo make install-algorithm

Fora da instalação, o mesmo script roda sozinho: dump-alg-minipro.bash /usr/local/share/minipro, usando o caminho que o minipro -V mostra em “Share dir”. Um aviso: num relato aberto em 6 de outubro de 2025, o script trava no Ubuntu 22.04 por causa da versão 3.6.0 do bsdtar. Se parar ali, não é a sua internet.

Os cinco problemas mais comuns

1. “No programmer found” mesmo com a gravadora plugada. Quase sempre é permissão: as regras de udev não foram copiadas, ou você não saiu e entrou de novo depois do usermod. Teste rápido: se funciona com sudo e não funciona sem, é isso. Dono de T76 precisa das regras do ramo principal.

2. TL866A ou TL866CS que não inicializa. Está na seção de ressalvas da documentação oficial: as duas têm um defeito de firmware e, quando a porta USB não entrega corrente suficiente, a gravadora não inicia nem se recupera depois de uma operação — combina especialmente mal com porta USB 3.0 moderna. Resolve-se com um hub com fonte própria.

3. O ramo principal pode quebrar o que funcionava. Honestidade antes de entusiasmo: num relato aberto em 25 de abril de 2026, as mudanças feitas para o T76 alteraram parâmetros de tensão de alguns chips no banco compartilhado, e modelos como o 25LC640 pararam de gravar no T48 — gravando normalmente na 0.7.4. Teste antes de abandonar a versão estável.

4. Validador de XML reclamando do banco de chips. Um relato de 12 de setembro de 2026 apontou comentários mal formados no infoic.xml. Conferimos no arquivo de hoje: continuam lá, 255 ocorrências. Não impedem o minipro de funcionar, mas atrapalham quem edita o banco com ferramenta de XML — o conserto é uma linha de sed trocando o hífen duplo por um simples.

5. “É experimental” não é força de expressão. A documentação diz que o suporte está completo para TL866A/CS, TL866II+ e T48, e que T56 e T76 são “muito experimentais” — e o minipro -Q repete isso na sua cara. Para EPROM, EEPROM e Flash serial do dia a dia, está pronto. Para eMMC e NAND no T76, você é parte do time de testes.

Se a gravadora ainda não está na bancada, duas compras que fazem sentido para quem vai usar o minipro:

Como Associados da Amazon, recebemos por compras qualificadas feitas pelos links acima — você não paga nada a mais por isso, e ajuda o site a continuar gratuito.

Perguntas frequentes

Dá para usar o minipro com a TL866CS barata do marketplace? Dá, e ela é das mais bem suportadas. Mas vale saber o que você compra: a própria XGecu publicou um aviso, em março de 2019, informando que a entrega da TL866A/CS parou em fevereiro de 2018 e que as unidades vendidas em AliExpress, eBay e Taobao são, nas palavras dela, pirateadas e falsificadas.

Qual gravadora comprar hoje para usar com Linux? A nossa recomendação é o T48: é o modelo que a fabricante aponta como substituto da TL866II+ e o único dos recentes cujo suporte no minipro está descrito como praticamente completo. T56 e T76 são mais capazes no papel, mas no Linux ainda dependem de código experimental.

Preciso instalar algum driver, como o CH340? Não. Estas gravadoras falam USB direto pela libusb — o que faz as vezes de driver, no Linux, é a regra de udev.

O minipro atualiza o firmware da gravadora? Atualiza, com a opção -F: ele confere o arquivo e pergunta antes de escrever. Os arquivos saem do site da fabricante.

Tem interface gráfica? Não oficialmente, e é proposital — o projeto prefere a linha de comando justamente para que alguém possa escrever uma interface por cima. Na bancada, um script com os comandos prontos resolve.

O resumo que cabe na bancada

Clone do GitLab e compile — leva menos de um minuto e é o único caminho oficial, porque pacote em repositório de distribuição não existe. Copie as regras de udev e entre no grupo plugdev antes de xingar o programa. Guarde que o minipro -V dirá “0.7.4” mesmo rodando código de setembro de 2026: quem conta a verdade é a linha do commit. E se a sua gravadora é um T76, o ramo principal não é luxo, é requisito — com a ressalva de que ele também pode regredir num chip que funcionava.

Uma observação que passa deste guia: é raro um programa de terceiros ser mais honesto sobre os próprios limites do que o software oficial. Digite minipro -Q e ele diz na lata o que está pronto e o que é experimento. Dá para trabalhar assim.

No próximo guia a fila segue para o microcontrolador: o STM32CubeIDE — download oficial, instalação e o primeiro projeto que pisca um LED.

Veja também

Se a sua próxima pergunta for sobre a placa que está esperando na bancada — qual chip ler primeiro e por onde começar a medir —, o Mapa da Placa é o nosso material de leitura de placa; vale conhecer.