Você deixou o multímetro gravando a tensão da placa por duas horas e agora tem um CSV com 14.400 linhas. Este guia mostra como transformar esse arquivo num gráfico e achar o minuto exato em que a tensão caiu, com dois programas gratuitos: o gnuplot, que faz o gráfico com um script de dez linhas, e o LibreOffice Calc, para quem prefere planilha. Testamos os dois aqui com um registro de demonstração e documentamos as duas armadilhas que desenham um gráfico errado sem dar erro nenhum. Última verificação: 13 de outubro de 2026.
De onde vem o arquivo
O ponto de partida é o registro do guia do multímetro UNI-T no PC pelo USB: o sigrok-cli lê duas medidas por segundo e um laço do terminal carimba cada linha com data e hora. O arquivo fica assim:
2026-10-13 08:00:00,V DC AUTO
2026-10-13 08:00:00,5.0209
2026-10-13 08:00:00,5.0233
2026-10-13 08:00:01,5.0198
Repare em dois detalhes que vão importar mais adiante: a primeira linha traz a unidade (V DC AUTO), não um número, e o separador decimal é o ponto, no padrão americano.
Para este guia, geramos com um script um registro de demonstração nesse mesmo formato: duas horas de uma linha de 5 V, com duas quedas curtas e uma queda definitiva no fim, como faz um regulador que começa a falhar quando esquenta. Não é a medição de uma placa real; é um arquivo de teste para conferir o que cada programa faz com ele.
Download oficial: versões e tamanhos
Os dois programas são livres e gratuitos. Baixe só do site oficial do projeto:
| Programa | Versão atual | Windows | Linux | macOS |
|---|---|---|---|---|
| gnuplot | 6.0.5 (arquivos de 31/07 e 04/08/2026) | gp605-win64-mingw.exe, 48,6 MB | pacote da distribuição (Ubuntu 24.04 entrega a 6.0.0) | Homebrew (fórmula na 6.0.5) |
| LibreOffice | 26.8.1 (08/10/2026) e 26.2.6 | MSI de 358 MB | pacote da distribuição ou site oficial | DMG no site oficial |
gnuplot: a página inicial do gnuplot.info aponta a versão 6.0.5 e o link “Primary download site on SourceForge”, que leva à pasta oficial gnuplot/6.0.5. Ali o projeto publica um arquivo .sha256 ao lado de cada instalador. Baixamos o gp605-win64-mingw.exe e o SHA-256 bateu com o publicado: a00c30c2…43026dc0. Um aviso: a página “download” do mesmo site ainda diz que a versão mais recente é a 6.0.3, de junho de 2025, porque foi atualizada pela última vez em setembro de 2025. Vale o que está na página inicial e na pasta do SourceForge.
LibreOffice: baixe em libreoffice.org/download, que hoje oferece a 26.8.1 e a 26.2.6. Para o que vamos fazer, as duas servem. Nossos testes rodaram na versão 24.2.7 do Ubuntu 24.04, então qualquer versão recente dá conta.
Instalando o gnuplot
Windows: rode o gp605-win64-mingw.exe. É um instalador Inno Setup sem assinatura digital (conferimos: o arquivo não traz certificado), então o Windows pode mostrar o aviso de editor desconhecido; confira o SHA-256 antes e siga. Depois abra o wgnuplot pelo menu Iniciar.
Linux (Ubuntu/Debian):
sudo apt install gnuplot-nox
O -nox é a versão sem janela, que só grava a imagem em arquivo. É a ideal para servidor ou Raspberry Pi. Para ter a janela interativa com zoom, instale o pacote gnuplot.
macOS: brew install gnuplot. O próprio site também lista binários de terceiros e o MacPorts.
O gráfico no gnuplot, em dez linhas
Salve isto como grafico.gp, na mesma pasta do registro.csv:
set datafile separator ","
set xdata time
set timefmt "%Y-%m-%d %H:%M:%S"
set format x "%H:%M"
set ylabel "Tensão (V)"
set grid
set yrange [4.4:5.2]
set terminal pngcairo size 1400,600
set output "grafico.png"
plot "registro.csv" using 1:2 with lines title "registro",
4.75 with lines dt 2 title "limite 4,75 V"
Rode com gnuplot grafico.gp. Aqui as 14.400 linhas viraram imagem em 0,08 segundo. A linha que não é número (V DC AUTO) foi ignorada sem reclamação. O limite de 4,75 V é só o nosso exemplo, 5% abaixo dos 5 V; troque pelo valor que faz sentido no circuito que você está medindo.

Nesse gráfico, o defeito intermitente fica evidente: a tensão cai, volta, cai de novo e, depois de 1h21 de placa ligada, não volta mais. É o comportamento típico do que explicamos em o calor na placa.
A primeira armadilha: esquecer o separador
Tire a primeira linha do script (set datafile separator ",") e rode de novo. O gnuplot não mostra erro nenhum e grava um gráfico que parece válido, só que errado: um degrau de 8 para 9. Sem o separador, ele divide as colunas por espaço. Assim, a “coluna 2” vira o pedaço 08:00:00,5.0209, e ele lê só o 08 da hora. O degrau é a virada das 8h para as 9h.

set datafile separator ",": em vez da tensão, o gnuplot desenhou a hora do relógio. Gráfico: Saber da Eletrônica (gnuplot 6.0).Já se você esquecer o set xdata time, ao menos aparece um aviso: Warning: empty x range [2026:2026]. O gnuplot leu só o ano como eixo X. Se o gráfico sair estranho, confira essas duas linhas primeiro.
O minuto exato da queda, sem olhar o gráfico
O gráfico mostra que caiu; para saber a hora exata e quanto tempo durou, use este script de awk (já vem no Linux e no macOS; no Windows, vem junto com o Git for Windows). Salve como quedas.awk:
$2 !~ /^-?[0-9.]+$/ {next}
{ v = $2 + 0 }
v < lim && !baixo { baixo = 1; ini = $1; minv = v; n++ }
baixo && v < minv { minv = v }
v >= lim && baixo { baixo = 0; printf "queda %d: %s -> %s (mín %.3f V)n", n, ini, $1, minv }
END { if (baixo) printf "queda %d: %s -> fim do registro (mín %.3f V)n", n, ini, minv }
Rode com awk -F, -v lim=4.75 -f quedas.awk registro.csv. No nosso arquivo, a saída foi:
queda 1: 2026-10-13 08:47:00 -> 2026-10-13 08:47:36 (mín 4.586 V)
queda 2: 2026-10-13 09:03:12 -> 2026-10-13 09:04:30 (mín 4.582 V)
queda 3: 2026-10-13 09:21:18 -> fim do registro (mín 4.519 V)
Três eventos, com início, fim e valor mínimo de cada um. As quedas ficam mais longas a cada vez (36 s, depois 78 s) até virar definitiva. Com isso em mãos, você sabe quanto tempo de bancada o defeito precisa para aparecer: na próxima vez, esquente a região suspeita com o soprador ou resfrie com spray, e confira se o minuto da falha muda.
Pelo LibreOffice Calc: a armadilha do ponto decimal
Aqui está a parte que ninguém conta. Abra o CSV num Calc configurado em português e ele aplica a regra brasileira, em que ponto é separador de milhar. Testamos com valores reais de multímetro:
3.302virou o número 3302 (ponto lido como milhar);12.000virou 12000;1.8174,629.0e4.6viraram texto, que o gráfico ignora.
Ou seja: numa mesma coluna, parte vira número mil vezes maior, parte some do gráfico, e nenhum aviso aparece. A ajuda oficial do Calc explica o motivo: o idioma escolhido na importação define quais são os separadores de milhar e de decimal.
A correção, na tela “Importar texto”, que aparece quando você abre o CSV:
- Em Idioma, escolha Inglês (EUA);
- Em Opções de separadores, marque só Vírgula;
- Deixe marcado Detectar números especiais, para a primeira coluna virar data e hora.
Testamos de novo com essas opções: todas as linhas viraram número com o valor certo (3,302; 1,8174; 629; 12; 4,6) e a primeira coluna virou data e hora. Há também a saída por coluna: em Tipo de coluna, a ajuda oficial descreve um tipo em que os números são “interpretados usando o local Inglês (EUA), independentemente do local selecionado” acima.
O gráfico: selecione as colunas A e B, vá em Inserir → Gráfico e escolha XY (dispersão) com “Somente linhas”. Assim a coluna A entra como eixo X de tempo.
O primeiro instante abaixo do limite, numa fórmula:
=MÍNIMOSES(A2:A14401;B2:B14401;"<4,75")
Formate a célula como data e hora. No nosso arquivo, a fórmula devolveu 2026-10-13 08:47:00, o mesmo que o awk. A função existe no Calc com esse nome em português (em inglês, MINIFS).
Quanto cabe: medimos o limite do Calc com uma fórmula que conta as linhas de uma coluna inteira, e o resultado foi 1.048.576 linhas. A duas leituras por segundo, dá cerca de 6 dias de registro numa planilha; acima disso, use o gnuplot e o awk, que não têm esse teto.
Os 5 problemas mais comuns
1. Gráfico com degrau de 8 para 9 (ou da hora do dia). Faltou set datafile separator "," no gnuplot. Ele não avisa.
2. “Warning: empty x range [2026:2026]”. Faltaram set xdata time e o set timefmt com o formato exato da data.
3. No Calc, valores mil vezes maiores ou pontos sumindo. O idioma da importação estava em Português; reabra o CSV com Inglês (EUA).
4. A primeira linha virou um ponto no zero. É a linha da unidade (V DC AUTO). O gnuplot pula sozinho; no Calc, apague a linha ou comece as fórmulas na linha 2.
5. Várias linhas com o mesmo horário. É normal: são duas leituras por segundo e o carimbo do date tem resolução de 1 segundo. Para o minuto da queda, não faz diferença.
Perguntas frequentes
Preciso saber programar para usar o gnuplot? Não. O script deste guia serve para qualquer registro nesse formato; você só troca o nome do arquivo e o limite.
O Excel tem a mesma armadilha do ponto decimal? Não testamos o Excel, então não vamos afirmar. Se o seu Windows está em português, confira as primeiras linhas depois de abrir: se 3.302 aparecer como 3302, é o mesmo problema.
Dá para ver o gráfico ao vivo enquanto mede? Sim, no PulseView, que usa os mesmos drivers do sigrok-cli. O caminho do CSV é para registros longos, analisados depois.
Funciona com corrente e temperatura? Funciona com qualquer grandeza que o multímetro registre. Troque o rótulo do eixo e o limite.
Onde comprar: para gravar o registro você precisa de um multímetro com saída para PC; o UT61E é o modelo mais bem suportado pelo sigrok, e o cabo UT-D04 é vendido avulso.
Como Associados da Amazon, recebemos por compras qualificadas feitas pelos links acima — você não paga nada a mais por isso, e ajuda o site a continuar gratuito.
Veredito honesto
Para registro de bancada, o gnuplot é a ferramenta certa: dez linhas de script, menos de um décimo de segundo para 14 mil pontos e nenhum limite de tamanho. O awk dá o minuto exato da queda. O Calc serve bem para quem prefere planilha, desde que você troque o idioma da importação para Inglês (EUA); sem isso, ele estraga os números em silêncio. O registro e o gráfico mostram quando a tensão cai. Achar qual componente está puxando é o próximo passo, e é trabalho de bancada.
Veja também
Quando o gráfico mostrar a queda e a pergunta virar “qual estágio da placa alimenta esta linha”, o Mapa da Placa é o nosso material de leitura de placa; vale conhecer.
