Esta placa usa o 7805, o regulador de três terminais mais comum da bancada, para transformar qualquer fonte contínua de 9 a 15 V — uma fonte de parede velha, uma bateria de moto, um transformador retificado — em 5 V estáveis, com um LED que avisa quando há tensão na saída e um diodo que impede a placa de queimar se você inverter os fios da entrada. Serve para alimentar Arduino, ESP, display ou sensor na bancada, e é o bloco que mais aparece dentro de aparelho de consumo. Nível: iniciante — dez componentes, nenhum ajuste.
O circuito não é invenção nossa: o núcleo é a Standard Application da página 1 do datasheet MC7800/D Rev. 29 (novembro de 2021) da onsemi, fabricante do CI; a proteção de entrada vem da figura 5, página 2, da nota SR005AN/D Rev. 1 da mesma onsemi, “Linear Regulator Protection Circuitry”. Tudo aqui foi conferido no ngspice.
O que você vai precisar
| Ref. | Componente | Valor | Especificação | Qtd. |
|---|---|---|---|---|
| U1 | Regulador de tensão positiva | 7805 | TO-220, 1 A (MC7805CT, L7805CV, KA7805 — equivalentes) | 1 |
| D1 | Diodo retificador | 1N4007 | 1 A / 1000 V, DO-41 | 1 |
| D2 | LED vermelho difuso | 5 mm | tipo Kingbright WP7113ID, 10 mA | 1 |
| R1 | Resistor de filme | 330 Ω | 1/4 W, 5% | 1 |
| C1 | Capacitor eletrolítico | 10 µF | 25 V, radial | 1 |
| C2 | Capacitor cerâmico | 330 nF | 50 V (ou 0,33 µF de poliéster) | 1 |
| C3 | Capacitor cerâmico | 100 nF | 50 V | 1 |
| C4 | Capacitor eletrolítico | 10 µF | 16 V, radial | 1 |
| J1, J2 | Borne de parafuso | 2 vias | passo 5,08 mm | 2 |
| — | Dissipador para TO-220 | ≥ 5 °C/W | com parafuso M3 e pasta térmica | 1 |
Some uns dez reais no balcão. O dissipador não é opcional — mais adiante você vê, em número, o que acontece sem ele.
Como funciona
A proteção de entrada (D1). A nota SR005AN é direta na página 3: reguladores de estrutura NPN, como o 7805, não têm proteção contra polaridade invertida dentro do chip e dependem de um diodo de bloqueio, um MOV ou um fusível do lado de fora. O D1 em série é esse diodo — em operação normal conduz, com os fios trocados bloqueia e nada acontece. O preço é a queda dele, que a nota também lembra: o diodo soma VD ao mínimo de entrada e dissipa (IOUT + IQ) × VD. Com 200 mA saindo, o 1N4007 cai 0,829 V e esquenta 176 mW.
Os capacitores. Na entrada o datasheet pede 0,33 µF ou mais ligado direto nos terminais, com pernas curtas: é o C2, com o C1 de 10 µF como reservatório (a figura 11 da página 19 mostra ≥ 10 µF ali). Na saída, o mesmo datasheet diz que o capacitor melhora a resposta a transientes e que valores menores que 0,1 µF podem causar instabilidade — daí o C3 de 100 nF, o piso indicado, mais o C4 de 10 µF.
O regulador. Pinagem do TO-220, com as letras de frente: 1 = entrada, 2 = terra, 3 = saída, e a aba metálica é ligada ao pino 2 — o dissipador fica no potencial de terra. Por dentro o CI traz as três proteções que a SR005AN descreve: desligamento térmico acima de 150 °C de junção, limitação da corrente de curto e compensação de área segura — por isso um 7805 em curto normalmente só fica ligando e desligando, em vez de explodir.
O LED indicador. Um resistor e um LED na saída, com a conta de sempre:
R1 = (VOUT − VF) / IF = (5 − 1,9) / 0,010 = 310 Ω → 330 Ω comercial
O VF de 1,9 V a 10 mA é o típico do datasheet do LED (Kingbright WP7113ID, spec DSAF0012 Rev. V.14A, 1º de agosto de 2026). Com os 330 Ω comerciais a simulação devolve 9,45 mA, bem dentro dos 30 mA máximos do componente.


A placa de circuito impresso
Para quem quer sair da protoboard: a placa abaixo foi desenhada no KiCad a partir do mesmo esquema, com os encapsulamentos reais dos componentes da lista, em face única (62 × 39 mm), trilhas de 0,8 mm e folga de 0,4 mm — medidas que aguentam a transferência térmica em casa. As ligações foram conferidas pino a pino contra o datasheet e o roteamento fechou com 57 trilhas, nenhuma via, nenhum jumper e nenhuma ligação pendente.


Arquivos da placa:
- PDF do cobre em escala 1:1 — imprima a 100%, sem “ajustar à página”.
- Gerber + furação (ZIP) — para mandar fabricar em qualquer fábrica de placas.
- Projeto KiCad — para mudar o tamanho ou refazer o roteamento.
Montagem
- Os menores primeiro: R1, depois D1. No D1 a faixa prateada é o catodo e fica virada para o lado do regulador.
- Os cerâmicos C2 e C3 não têm polaridade. Solde com as pernas curtas, o mais perto possível dos pinos do CI — é literalmente o que o datasheet pede.
- Os eletrolíticos C1 e C4 têm: perna comprida e quadradinho da serigrafia são o positivo. No LED D2, perna curta e chanfro do corpo são o catodo e vão para o terra — o chanfro está na serigrafia.
- O U1 e o dissipador. Parafuse o 7805 no dissipador antes de soldar, com um fio de pasta térmica. Como a aba é o terra, se o dissipador encostar em algo que seja no terra, nunca na entrada.
- Os bornes por último, e confira em continuidade se não sobrou ponte entre trilhas.
Tensões esperadas
Com 12 V na entrada e 200 mA de carga:
| Ponto de medida | Valor esperado |
|---|---|
| J1 pino 1 (entrada da placa) | 12,00 V |
| Pino 1 do U1 (depois do D1) | 11,17 V |
| Queda sobre o D1 | 0,83 V |
| Pino 2 do U1 e aba metálica | 0 V (terra) |
| Pino 3 do U1 e J2 pino 1 (saída) | 5,00 V |
| Junção R1–LED (anodo do LED) | 1,88 V |
| Corrente no LED | 9,4 mA |
| Corrente total puxada da fonte | 212,7 mA |
| Ondulação na saída (com 2 V de 120 Hz na entrada) | 0,14 mV — rejeição de 83 dB |
Medido em simulação; na bancada aceite ±10%. O subcircuito do 7805 é comportamental — a onsemi não publica modelo SPICE do MC7800 — e propaga os números garantidos da tabela elétrica da página 3: nas condições de teste do datasheet devolveu 4,9992 V de saída, 3,200 mA de repouso, 1,294 mV de regulação de carga (1,3 mV típicos) e 83,00 dB de rejeição. Os modelos do 1N4007 e do LED foram ajustados aos datasheets dos dois, com 0,6% de erro em cada.
Quanto o 7805 realmente entrega
Aqui está a parte que quase nenhum tutorial conta. O 7805 é vendido como “1 A” e o CI aguenta 1 A — mas o que limita a placa não é o CI, é o calor. A conta sai dos números do próprio datasheet: resistência térmica junção-ambiente de 65 °C/W para o TO-220 solto ao ar, junção-encapsulamento de 5 °C/W e junção máxima de 150 °C.
PD = (VIN − VOUT) × IOUT + VIN × IQ | TJ = TA + θJA × PD
Com 12 V na entrada e 200 mA na saída o regulador dissipa 1,27 W: sem dissipador a junção vai a 108 °C num ambiente de 25 °C — funciona, mas o CI fica escaldante; com dissipador de 5 °C/W ela fica em 39 °C. Puxando 500 mA dos mesmos 12 V sem dissipador a conta dá 3,10 W e 226 °C de junção: o protetor térmico desliga e o CI fica ligando e desligando.

Sem dissipador a placa entrega 610 mA com 9 V de entrada, 307 mA com 12 V, 205 mA com 15 V e 153 mA com 18 V. Com dissipador de 5 °C/W o 1 A inteiro fica disponível até quase 17 V. A regra prática: quanto menor a tensão de entrada, mais corrente a mesma placa entrega.
Onde costuma dar errado
- Componente invertido. Os candidatos são o D1, os eletrolíticos C1 e C4 e o LED. Diodo e LED invertidos não queimam nada, só não sai tensão — é a causa número um de “montei e não funciona”; eletrolítico invertido estufa.
- Oscilação. Chiadeira de alta frequência na saída quase sempre é o C3: ou não foi montado, ou está longe demais dos pinos.
- Aquecimento. Aba quente demais para encostar o dedo significa que você está fora do gráfico acima. Duas saídas: baixar a tensão de entrada ou pôr dissipador — aumentar capacitor não resolve calor.
- Ruído na saída. A rejeição de 83 dB derruba 2 V de ondulação para 0,14 mV, então ruído sobrando raramente vem da fonte: vem do terra — trilha fina, fio comprido, terra da carga fechando longe. Feche o terra da carga no borne J2.
- Alimentação insuficiente. O 7805 precisa de 2,0 V a mais que a saída e o D1 come mais 0,83 V: na simulação a saída sai de regulação abaixo de 7,82 V na entrada. Bateria de 9 V parece suficiente — e é, até cair para 7,5 V, quando o circuito passa a dar defeito intermitente.
Um detalhe que só apareceu na simulação: ao ligar, o regulador entra em limitação de corrente, batendo exatamente nos 2,200 A de pico do datasheet enquanto carrega o C4, e o D1 leva um pulso de 11,5 A por alguns microssegundos para carregar o C1. É o que a nota SR005AN avisa na página 2: o diodo de bloqueio deve ser dimensionado para o surto de partida, não para a corrente de carga. O 1N4007 aguenta (30 A de pico não repetitivo); um 1N4148 não aguentaria.
Variações
- Outra tensão de saída, mesma placa. A família MC7800 tem a mesma pinagem e o mesmo encapsulamento: troque o U1 por um 7809 ou 7812 e você tem 9 V ou 12 V sem mexer em mais nada — só recalcule o R1 (para 12 V, ≈ 1 kΩ).
- Mais corrente sem trocar nada. Baixar a entrada de 12 V para 9 V dobra o que a placa entrega sem dissipador: de 307 mA para 610 mA.
- LED mais discreto ou mais forte. Com R1 de 1 kΩ o LED puxa 3,2 mA, bom para equipamento a bateria; com 220 Ω sobe para 13,9 mA, ainda longe dos 30 mA máximos.
Circuito do fabricante, conferido em simulação. Ainda não montamos esta placa na bancada — quando montarmos, o post é atualizado com foto. Se você montar antes, mande a foto para a Saber: a gente publica.
Veja também
- Fonte ajustável de 1,25 a 30 V com LM317 — o irmão ajustável desta placa.
- Reguladores e trilhos de tensão na placa — como achar cada tensão dentro de um aparelho.
- Fonte de alimentação: como funciona por dentro — o que existe antes do regulador.
Se depois de montar você quiser aprender a rastrear tensões dentro de uma placa de verdade — achar onde cada trilho nasce, onde ele some e por quê — é disso que trata o Mapa da Placa.
