Este é o pisca-pisca mais antigo das revistas de eletrônica: dois transistores BC548, dois capacitores e quatro resistores fazem um LED vermelho e um verde piscarem alternados, cerca de uma vez por segundo, sem nenhum circuito integrado. Serve de sinalizador para maquete ou brinquedo e, principalmente, para entender como um transistor liga e desliga o outro. Nível: iniciante — dez componentes, nenhum ajuste.
O circuito não é invenção nossa: é a Figura 1 da atividade “BJT Multivibrators”, publicada pela Analog Devices na Analog Dialogue (vol. 56, nº 3, julho de 2022, Doug Mercer e Antoniu Miclaus), com 2N3904 e 5 V. Aqui o transistor é o BC548B, com os dados do datasheet BC546/D Rev. 8 (agosto de 2021) da onsemi — o datasheet do BC548 não traz este circuito; a topologia e os valores vêm do documento da Analog Devices.
O que você vai precisar
| Ref. | Componente | Valor | Especificação | Qtd. |
|---|---|---|---|---|
| Q1, Q2 | Transistor NPN | BC548B | TO-92 (BC547B ou BC548C também servem) | 2 |
| R1, R2 | Resistor de filme | 470 Ω | 1/4 W, 5% (amarelo-violeta-marrom) | 2 |
| R3, R4 | Resistor de filme | 20 kΩ | 1/4 W, 5% (vermelho-preto-laranja; 22 kΩ serve) | 2 |
| C1, C2 | Capacitor eletrolítico | 47 µF | 16 V, radial, passo 2,5 mm | 2 |
| D1 | LED vermelho | 5 mm | difuso, comum | 1 |
| D2 | LED verde | 5 mm | difuso, comum | 1 |
| J1 | Borne de parafuso | 2 vias | passo 5,08 mm | 1 |
| — | Alimentação de 5 V | — | carregador USB velho, ou 4 pilhas AA (6 V). Não use 9 V — veja o motivo abaixo | 1 |

Como funciona
Dois interruptores que se desligam um ao outro. Cada transistor é uma chave: com corrente na base (vinda de R3 ou R4), ele conduz e acende o LED do seu coletor; sem corrente, corta e o LED apaga. O truque está nos capacitores cruzados: C1 liga o coletor de Q1 à base de Q2, e C2 liga o coletor de Q2 à base de Q1. Quando Q1 conduz, seu coletor cai de uns 3,5 V para quase zero — e o C1, que estava carregado, arrasta a base de Q2 para −2,75 V. Q2 corta e o LED verde apaga.
A rampa que marca o tempo. Daí em diante o C1 se recarrega pelo R4, e a base de Q2 sobe em rampa de −2,75 V até uns +0,65 V. Nesse ponto Q2 liga, seu coletor despenca, o C2 empurra a base de Q1 para baixo, Q1 corta — e o ciclo recomeça do outro lado. Cada LED fica aceso enquanto o outro transistor espera a sua base subir.
A conta. O livro-texto diz que cada meio período vale t ≈ 0,69 × R × C: com 20 kΩ e 47 µF, 0,65 s, ou 1,30 s por ciclo. Mas essa fórmula supõe o capacitor carregado até quase a tensão da fonte, e com o LED no coletor isso não acontece: o coletor do transistor cortado só sobe até uns 3,5 V, o capacitor só carrega até 2,8 V e a base só desce até −2,75 V. A conta exata é
t = R × C × ln[(VCC − Vbase,mín) / (VCC − VBE)] = 0,94 s × ln(7,75 / 4,35) = 0,54 s
ou seja, 1,09 s por ciclo. A simulação deu 1,04 s (0,96 Hz): 4% abaixo da conta e 20% abaixo do “0,69 RC” dos livros. Se o seu piscar mais rápido do que a fórmula clássica promete, é o LED no coletor, não defeito.
Saturação garantida. A base recebe (5 − 0,7 V) / 20 kΩ = 0,215 mA e o coletor, 6,6 mA: ganho forçado de 31, contra um hFE mínimo de 110 na tabela da página 2 do datasheet. Qualquer unidade satura com folga.

Por que 5 V, e não a pilha de 9 V
Quando um transistor corta, o capacitor puxa sua base para baixo de zero: a junção base-emissor fica polarizada ao contrário, e o datasheet limita essa tensão reversa a VEBO = 6 V (máximos absolutos, página 1). Com 5 V de fonte a base chega a −2,75 V; com 4 pilhas AA (6 V), a −3,7 V; com a bateria de 9 V a simulação dá −6,7 V, acima do limite — a junção “zena”, o circuito até pisca, mas o ganho do transistor vai se degradando. Por isso 5 V (um carregador de celular velho resolve) ou 6 V. Se só tiver 9 V, alimente pelo regulador 7805 que montamos antes.

A placa de circuito impresso
A placa abaixo foi desenhada no KiCad a partir do mesmo esquema, com os encapsulamentos reais dos componentes da lista, em face única (60 × 44 mm), trilhas de 0,8 mm e folga de 0,4 mm. As ligações foram conferidas pino a pino contra o datasheet e o roteamento fechou com 42 trilhas, nenhuma via, nenhum jumper e nenhuma ligação pendente.


Arquivos da placa:
- PDF do cobre em escala 1:1 — imprima a 100%, sem “ajustar à página”.
- Gerber + furação (ZIP) — para mandar fabricar.
- Projeto KiCad — para mudar o tamanho ou refazer o roteamento.
Montagem
- Os quatro resistores primeiro. R1 e R2 (470 Ω) ficam embaixo dos LEDs; R3 e R4 (20 kΩ) nas pontas.
- Os transistores, com a face chata exatamente como na serigrafia: Q1 com a parte chata virada para o R1, Q2 virada para a borda de baixo. É a única chance de errar o pino.
- Os LEDs: perna curta (catodo) no pad quadrado, que é o lado chato do desenho; perna longa no pad redondo.
- Os eletrolíticos: perna longa (+) no pad quadrado, marcado com “+”. O positivo fica sempre do lado do coletor (R1 ou R2), não da base.
- O borne por último (pad quadrado = +5 V). Ligue os 5 V: os LEDs alternam na hora. Nada esquenta — a corrente média é de 7 mA.
Tensões esperadas
Os pontos trocam de estado a cada meio segundo, e o multímetro mostra uma média que pula. Para medir com calma, troque C1 e C2 por 470 µF: o ciclo passa para uns 10 s.
| Ponto (fonte de 5,00 V) | Valor esperado |
|---|---|
| Coletor do transistor ligado (LED aceso) | 0,02 V |
| Coletor do transistor cortado (LED apagado) | 3,5 V (não 5 V — o LED segura o resto) |
| Base do transistor ligado | 0,70 V |
| Base do transistor cortado | rampa de −2,75 V até +0,65 V |
| Catodo do LED aceso (entre o LED e seu resistor) | 3,1 V (LED com 1,9 V) |
| Corrente no LED aceso | 6,5 mA |
| Corrente média da fonte | 7,3 mA (picos de 13 mA na troca) |
Medido em simulação; na bancada aceite ±10%. Eletrolíticos comuns têm tolerância de ±20%, então o período real pode ficar entre 0,85 e 1,25 s.
Onde costuma dar errado
- Componente invertido. Transistor com a face chata ao contrário: o LED daquele lado fica sempre aceso ou sempre apagado. LED invertido não acende, mas não queima. Eletrolítico invertido pisca torto e vaza com o tempo.
- Não oscila — os dois LEDs acesos e parados. Resistor de base aberto (ou trocado por 470 Ω) ou capacitor seco. Na simulação o circuito arranca sozinho mesmo com a fonte subindo devagar; se travar na bancada, desconfie de R3, R4 ou dos capacitores.
- Aquecimento. Nada deve esquentar. Transistor morno é curto entre LED e resistor de coletor — desligue e confira a solda.
- Ritmo errado. 20% para mais ou para menos é tolerância do eletrolítico. Muito mais rápido: C1 ou C2 de 4,7 µF no lugar de 47 µF (os códigos se parecem). Muito mais devagar: R3/R4 de 200 kΩ.
- Alimentação. Acima de 6 V a base ultrapassa o VEBO (seção acima). Para baixo o circuito é teimoso: na simulação ainda pisca com 3 V, mas o LED cai para 2,5 mA e fica fraco.
Variações
- Velocidade. O período é proporcional a R × C. Com 470 µF o ciclo vai a 10 s; com 4,7 µF cai para 0,1 s e os dois LEDs parecem acesos juntos — a própria atividade da Analog Devices descreve isso ao trocar para 0,1 µF. Pelo resistor, fique entre 10 kΩ e 47 kΩ: com 47 kΩ o ganho forçado sobe para 72, ainda abaixo do hFE mínimo de 110; com 100 kΩ não há mais garantia de saturação.
- Tempos diferentes para cada LED. O vermelho fica aceso enquanto Q2 espera a base subir: o tempo dele é R4 × C1; o do verde, R3 × C2. Com C1 = 10 µF e C2 = 47 µF, o vermelho dá um lampejo de 0,1 s a cada 0,6 s — efeito de farol.
- Carga maior. Para lâmpada ou buzzer, use o coletor para disparar um segundo transistor ou um relé: o BC548 suporta só 100 mA de coletor (máximos absolutos, página 1).
Circuito do fabricante, conferido em simulação. Ainda não montamos esta placa na bancada. Como nem a Nexperia nem a onsemi disponibilizaram o modelo SPICE do BC548 para download, usamos um modelo Gummel-Poon nosso, ajustado à tabela do datasheet da onsemi (ganho 289 × 290 típico, VCE(sat) 0,05 × 0,09 V, fT 316 × 300 MHz); a simulação confere a rede em volta dos transistores. Se você montar, mande a foto para a Saber.
Veja também
- Temporizador e pisca-pisca com 555 — o mesmo efeito com um circuito integrado
- Transistor: o que é, como funciona e para que serve
- Osciladores: como um circuito gera sinal
Se você quer usar esse mesmo raciocínio — tensão esperada em cada ponto, componente que liga e desliga o vizinho — para achar defeito em placa de verdade, é disso que trata o Mapa do Reparo.
