Esta fonte transforma uma tensão contínua fixa em qualquer valor entre 1,25 V e cerca de 30 V, escolhido num potenciômetro, com limitação de corrente e proteção térmica já embutidas no chip. Na prática, é a fonte ajustável que resolve a bancada inteira: alimenta protótipo de 3,3 V, carrega circuito de 12 V, testa relé de 24 V e serve de “fonte de laboratório” para quem ainda não comprou uma. O nível é iniciante para intermediário: são só sete componentes, mas você precisa entender dissipação de calor antes de puxar corrente dela.
O coração é o LM317, regulador ajustável de três terminais. O circuito abaixo é o da aplicação típica do datasheet da Texas Instruments — LM317 3-Pin Adjustable Regulator, documento SLVS044Z, revisado em abril de 2025 — e foi conferido por nós em simulação com o modelo SPICE que a própria TI publica.
O que você vai precisar
| Ref. | Componente | Valor | Tolerância / potência / tensão | Qtd. |
|---|---|---|---|---|
| U1 | Regulador ajustável LM317T (encapsulamento TO-220) | LM317 | até 1,5 A; até 40 V entre entrada e saída | 1 |
| R1 | Resistor de filme metálico | 220 Ω | ±1%, 1/4 W | 1 |
| R2 | Potenciômetro linear | 5 kΩ | curva linear (B), 1/2 W | 1 |
| Ci | Capacitor cerâmico (marcado 104) | 100 nF | 50 V | 1 |
| Co | Capacitor cerâmico ou de tântalo | 1 µF | 50 V | 1 |
| CADJ | Capacitor eletrolítico | 10 µF | 50 V | 1 |
| D1, D2 | Diodo retificador | 1N4002 | 1 A, 100 V | 2 |
| — | Dissipador para TO-220, isolador de mica e pasta térmica | — | quanto maior, melhor | 1 |
| — | Fonte DC já filtrada na entrada | até 35 V | corrente de pelo menos a que você vai usar | 1 |
A TI usa 240 Ω em R1. Nós trocamos por 220 Ω — valor mais fácil de achar — porque, com o potenciômetro de 5 kΩ, é ele que leva o topo da faixa a 30 V. A conta está logo abaixo.

Como funciona, estágio por estágio
A referência de 1,25 V
Dentro do LM317 existe um amplificador que faz uma única coisa: manter o terminal OUT exatamente 1,25 V acima do terminal ADJ. O datasheet garante essa tensão entre 1,20 V e 1,30 V em qualquer condição de uso. É dela que sai todo o resto.
O divisor R1 + R2 escolhe a tensão
Como R1 fica ligado entre OUT e ADJ, ele sempre tem 1,25 V em cima. Pela Lei de Ohm, passa por ele uma corrente fixa: 1,25 V ÷ 220 Ω = 5,7 mA. Essa mesma corrente desce por R2 até o terra, e a tensão que ela cria em R2 se soma aos 1,25 V. A equação da TI (seção 8.2.2, página 16) é:
VOUT = 1,25 V × (1 + R2 / R1) + IADJ × R2
O segundo termo é a corrente que sai do próprio pino ADJ, tipicamente 50 µA. Com o potenciômetro todo aberto (R2 = 5 kΩ): 1,25 × (1 + 5000/220) + 0,00005 × 5000 = 29,66 + 0,25 = 29,9 V. Com o potenciômetro zerado, sobra só a referência: 1,25 V.
Os capacitores
Ci (100 nF) segura a estabilidade quando o regulador fica longe dos capacitores de filtro da fonte de entrada — a TI pede no mínimo 0,1 µF. Co (1 µF) melhora a resposta quando a carga muda de repente; não é necessário para estabilidade. CADJ (10 µF) é o que faz diferença no ouvido e no osciloscópio: aterra o ripple no pino ADJ e impede que ele seja amplificado junto com a tensão de saída.
Os diodos de proteção
Quando você desliga a entrada, os capacitores continuam carregados. D1 dá a Co um caminho de descarga de volta para a entrada, sem passar por dentro do regulador. D2 faz o mesmo para CADJ, descarregando-o na saída em vez de no pino ADJ. A TI recomenda os dois sempre que Co e CADJ estiverem presentes — é essa a “proteção” desta fonte, somada à limitação de corrente e ao desligamento térmico que o chip já traz.
O esquema

A placa de circuito impresso
Para quem quer sair da protoboard: a placa abaixo foi desenhada no KiCad a partir do mesmo esquema, com os encapsulamentos reais dos componentes da lista, em face única (60 × 45 mm), trilhas de 0,8 mm e folga de 0,4 mm, medidas que aguentam a transferência térmica em casa. As ligações foram conferidas pino a pino contra o esquema e o roteamento passou sem nenhuma ligação pendente e nenhuma violação de folga. Uma única ligação não coube na face de baixo e virou o jumper JP1: um pedaço de fio rígido soldado por cima, marcado na serigrafia.


Arquivos da placa:
- PDF do cobre em escala 1:1 — imprima a 100% (sem “ajustar à página”) em papel para transferência térmica ou fotolito.
- Gerber + furação (ZIP) — para mandar fabricar em qualquer fábrica de placas; é só enviar o arquivo.
- Projeto KiCad — para quem quiser mudar o tamanho, trocar um componente ou refazer o roteamento.
O potenciômetro fica fora da placa, no painel, ligado no borne de três vias J3 (ADJ, cursor e terra). O LM317T vai com o dissipador parafusado; se o dissipador tocar no gabinete, use o isolador de mica.
Montagem
- Fixe o LM317 no dissipador primeiro, com pasta térmica. A aba é a saída: se o dissipador encostar no chassi ou em outra parte do circuito, use isolador de mica e bucha plástica no parafuso.
- Numa placa padrão, solde R1 colado aos terminais OUT e ADJ. Fio comprido entre R1 e o regulador piora a regulação.
- Ligue o potenciômetro entre ADJ e o terra, usando o cursor e um dos extremos. Gire o eixo todo para o lado de menor resistência antes de energizar.
- Solde CADJ observando a polaridade: positivo no ADJ, negativo no terra.
- Solde D1 com a faixa virada para a entrada e D2 com a faixa virada para a saída. Os dois ficam reversamente polarizados no uso normal e só conduzem no desligamento.
- Ci o mais perto possível do pino IN; Co perto do pino OUT.
- Primeira energização sem carga, com o multímetro na saída. Gire o potenciômetro e confira se a tensão sobe de 1,25 V até perto de 30 V. Só depois ligue alguma coisa.
Tensões esperadas
Valores da nossa simulação com entrada de 35 V e uma carga de 1 kΩ na saída:
| Ponto | Valor esperado | Observação |
|---|---|---|
| Pino 3 (IN) | 35,0 V | a tensão da sua fonte de entrada |
| Entre OUT e ADJ (sobre R1) | 1,25 V | não muda com o potenciômetro |
| Saída, potenciômetro zerado | 1,28 V | o mínimo da fonte |
| Saída, R2 em 1,9 kΩ | 12,0 V | pino ADJ em 10,8 V |
| Saída, R2 em 2,5 kΩ (meio curso) | 15,5 V | — |
| Saída, potenciômetro no máximo | 29,7 V | a fórmula dá 29,9 V; o modelo não inclui os 50 µA do ADJ |
| Saída de 12 V com carga de 10 mA → 1,5 A | variação de 0,6 mV | o datasheet admite até 0,5% (60 mV) |
| Rejeição do ripple de 120 Hz, saída em 10 V | 78 dB com CADJ / 62 dB sem | datasheet: 80 dB e 65 dB típicos (chip novo) |
Medido em simulação; na bancada aceite ±10%. Nos 20 pontos que simulamos ao longo do potenciômetro, a maior diferença contra a fórmula da TI foi de 2,2%, justamente no mínimo.

Onde costuma dar errado
- Pinagem invertida. O LM317 não segue a ordem do 7805: aqui é ADJ, OUT, IN. Ligar a entrada no pino do meio é o erro número um, e o sintoma é saída igual à entrada ou chip esquentando sem carga.
- Oscilação. Regulador montado longe do capacitor de filtro, sem Ci, pode oscilar e mostrar uma tensão “nervosa” no multímetro. Ci de 100 nF colado no pino IN resolve.
- Aquecimento. Todo o excesso de tensão vira calor: P = (VIN − VOUT) × I. Com 35 V na entrada, 5 V na saída e 0,5 A, são 15 W — nenhum dissipador pequeno aguenta isso. O chip se protege desligando, e a fonte parece “falhar”. Para correntes altas em tensão baixa, abaixe a tensão de entrada.
- Corrente menor que a prometida. O limite de 1,5 A a 2,2 A do datasheet vale com até 15 V de diferença entre entrada e saída. Com 40 V de diferença, o limite cai para 0,15 A a 0,4 A. Atenção: o modelo SPICE da TI não reproduz essa queda — ela está só na tabela do datasheet.
- Ruído e tensão que sobe sem carga. Sem CADJ o ripple passa para a saída. E sem carga nenhuma o regulador precisa de uma corrente mínima (até 10 mA no pior caso, com 40 V de diferença); os 5,7 mA de R1 atendem o uso normal, mas com a saída em aberto e a entrada muito alta a tensão pode subir um pouco.
Variações
- R1 de 240 Ω, como na TI: o topo cai para 1,25 × (1 + 5000/240) + 0,25 = 27,5 V, com um pouco menos de corrente no divisor.
- Potenciômetro de 2 kΩ: a faixa fica de 1,25 V a 12,7 V, e cada grau do eixo vale menos volts — ajuste fino para quem trabalha com 3,3 V, 5 V e 12 V. Aí basta uma entrada de 16 V ou mais.
- Tensão fixa de 5 V: troque o potenciômetro por um resistor de 680 Ω e a saída vai para 1,25 × (1 + 680/220) ≈ 5,1 V, com uma entrada a partir de 8 V.
Antes de ligar
Circuito do fabricante, conferido em simulação; se você montar, mande a foto para a Saber. O carimbo de “montado e testado na bancada” nós só damos quando montamos de verdade.
Veja também
Quer ir além de montar e começar a consertar? O Mapa da Placa é onde a gente ensina a ler uma placa inteira — não só um circuito por vez.
Fonte técnica: Texas Instruments, LM317 3-Pin Adjustable Regulator, documento SLVS044Z (setembro de 1997, revisado em abril de 2025): características na página 1, tabela elétrica na página 8, figura 8-1 e requisitos de projeto na página 15, equação 2 na página 16. Simulação própria em ngspice com o LM317 PSpice Transient Model não criptografado da TI (arquivo SLVMC40, versão Final 1.00). Última verificação: 17 de setembro de 2026.
