O injetor de sinal é a ferramenta mais velha da bancada de som: um oscilador de bolso que põe um apito de 1 kHz em qualquer ponto do aparelho, para você descobrir em que estágio o som some. Com ele, um rádio, amplificador ou caixa de som “mudo” deixa de ser um mistério e vira uma busca de trás para a frente, estágio por estágio. Nível: iniciante — um CI 555, cinco resistores, cinco capacitores e nenhum ajuste.

O coração do circuito é o astável da Figura 6-5 do datasheet SLFS022K (revisão de março de 2026) da Texas Instruments, seção 6.3.2, página 12 — o mesmo do pisca-pisca com 555 que já montamos aqui, com os mesmos R1 e R2 e um capacitor de tempo mil vezes menor. O que vem depois do pino 3 (divisor de nível, capacitor de bloqueio e ponta de prova) é um acréscimo nosso, passivo, e está explicado abaixo.

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O que você vai precisar

Ref. Componente Valor Especificação Qtd.
U1 Temporizador NE555 DIP-8 (NE555P, LM555 ou equivalente bipolar); use soquete 1
R1 Resistor de filme 10 kΩ 1/4 W, 5% (marrom-preto-laranja) 1
R2 Resistor de filme 68 kΩ 1/4 W, 5% (azul-cinza-laranja) 1
R3 Resistor de filme 4,7 kΩ 1/4 W, 5% (amarelo-violeta-vermelho) 1
R4 Resistor de filme 2,2 kΩ 1/4 W, 5% (vermelho-vermelho-vermelho) 1
R5 Resistor de filme 100 kΩ 1/4 W, 5% (marrom-preto-amarelo) 1
RV1 Potenciômetro 10 kΩ linear (B10K), de painel 1
C1, C2 Capacitor de poliéster 10 nF 63 V ou mais, passo 5 mm (código 103) 2
C3 Capacitor cerâmico 100 nF 50 V, passo 5 mm (código 104) 1
C4 Capacitor eletrolítico 100 µF 16 V, radial, passo 2,5 mm 1
C5 Capacitor de poliéster 100 nF 250 V, passo 5 mm 1
D1 LED vermelho 5 mm comum (indica “ligado”) 1
J1, J2 Borne de parafuso 2 vias passo 5,08 mm 2
J3 Borne de parafuso 3 vias passo 5,08 mm (liga o RV1) 1
S1, B1 Chave e bateria 9 V chave liga-desliga + clipe de bateria 1
— Ponta e garra — ponta de prova (ou prego num tubo de caneta) e fio com garra jacaré 1
Circuito integrado NE555P da Texas Instruments em encapsulamento DIP-8 soldado numa placa verde
Um NE555P da Texas Instruments na placa de controle de uma luminária de palco. O pino 1 é o da bolinha (canto inferior esquerdo nesta foto); a contagem segue no sentido anti-horário, vista de cima. Foto: Raimond Spekking, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (redimensionada).

Como funciona

O oscilador. C1 carrega por R1 + R2 até 2/3 da alimentação (6 V com 9 V) e descarrega só por R2, pelo pino 7, até 1/3 (3 V). Cada vez que cruza um desses limites, a saída do pino 3 vira. O datasheet dá as contas (equações 1 a 4, página 12):

f = 1,44 / ((R1 + 2·R2) × C1) = 1,44 / (146 kΩ × 10 nF) = 986 Hz
talto = 0,693 × (R1 + R2) × C1 = 0,54 ms · tbaixo = 0,693 × R2 × C1 = 0,47 ms

R2 bem maior que R1 deixa a onda quase quadrada (53% do tempo em nível alto). E, como os limites são frações da própria alimentação, a frequência não depende da bateria: na simulação, com 7 V, 9 V ou 12 V, deu 986 Hz nas três.

Por que onda quadrada. Um apito de 1 kHz serve para os estágios de áudio. Mas a onda quadrada tem cantos vivos — a TI dá 100 ns típicos de subida e descida (tabela de características de chaveamento, página 7) — e por isso carrega harmônicos de 1 kHz em 1 kHz até alguns megahertz. Pela série de Fourier, com o nível no máximo, cada harmônico perto de 455 kHz (a frequência intermediária dos rádios AM) ou de 1 MHz (meio da faixa de ondas médias) tem uns 3 mV. É pouco, mas o estágio de FI ou de RF de um rádio amplifica isso e o apito sai no alto-falante. Esse valor é calculado, não simulado — o modelo que usamos não reproduz o tempo de subida do CI real.

A saída. R3 e RV1 formam um divisor: no máximo, o cursor entrega 4,2 V de pico a pico numa entrada de 10 kΩ; no meio do curso, 2,1 V; com 10% do curso, 0,5 V. C5 bloqueia a tensão contínua do ponto onde você encosta a ponta, e R5 descarrega o C5 entre um toque e outro (100 nF × 100 kΩ = 10 ms). Os desacoplamentos são os que a TI pede: C2 de 10 nF no pino 5 (nota A da Figura 6-5) e um capacitor de 0,1 µF entre VCC e GND (seção 7.3, página 18); o C4 de 100 µF segura a bateria quando ela começa a ficar fraca.

Esquema do injetor de sinal com NE555: astável com R1 10 k, R2 68 k e C1 10 nF, saída por R3 4,7 k, potenciômetro de nível de 10 k, capacitor de bloqueio de 100 nF 250 V e ponta de prova
Esquema redesenhado conforme a Figura 6-5 (astável) do datasheet SLFS022K da Texas Instruments; o divisor de nível, o C5 e o R5 são acréscimo nosso.
Gráfico da simulação do injetor de sinal: capacitor oscilando entre 3 e 6 volts, saída quadrada de 986 hertz e sinal na ponta de prova; abaixo, os harmônicos calculados até alguns megahertz
Simulação no ngspice com 9 V: C1 vai e volta entre 3,00 e 6,00 V, o pino 3 oscila a 986 Hz e a ponta entrega a onda sem a componente contínua. Embaixo, os harmônicos calculados por Fourier.

A placa de circuito impresso

A placa abaixo foi desenhada no KiCad a partir do mesmo esquema, com os encapsulamentos reais dos componentes da lista, em face única (64 × 44 mm), trilhas de 0,8 mm e folga de 0,4 mm. As ligações foram conferidas pino a pino contra o datasheet e o roteamento fechou com 95 trilhas, nenhuma via, nenhum jumper e nenhuma ligação pendente. A chave, a bateria e o potenciômetro ficam fora da placa, ligados pelos bornes.

Placa de circuito impresso do injetor de sinal com 555, vista de cima, com a serigrafia dos componentes e as trilhas de cobre da face de baixo
Vista de cima: em azul, as trilhas da face de baixo. J1 = bateria (pad quadrado = +9 V); J3 = potenciômetro (pad quadrado = extremo “cheio”, meio = cursor, terceiro = GND); J2 = saída (pad quadrado = ponta, o outro = garra).
Lado do cobre da placa do injetor de sinal com 555
O lado do cobre. Para transferir, use o PDF em escala 1:1 abaixo.

Arquivos da placa:

Montagem

  1. Resistores e soquete primeiro. O soquete com o chanfro para o lado da serigrafia; o CI só entra no fim.
  2. Capacitores de poliéster e cerâmico (C1, C2, C3, C5) não têm polaridade. Não troque C1 com C5: os dois têm o mesmo tamanho, mas o de 250 V vai na saída.
  3. Eletrolítico C4: perna longa (+) no pad quadrado. LED: perna curta (catodo) no pad quadrado.
  4. Bornes e fiação externa. Chave em série com o fio vermelho da bateria até o pad quadrado do J1. No potenciômetro, com o eixo virado para você e os terminais para baixo: terminal da direita no pad quadrado do J3, o do meio no meio, o da esquerda no terceiro — assim o nível sobe girando para a direita.
  5. Ponta e garra. Fio curto do pad quadrado do J2 até a ponta; fio com garra jacaré no outro borne. Encaixe o NE555 (bolinha do lado do chanfro) e ligue: o LED acende e, com a ponta num fone de ouvido ou alto-falante pequeno, ouve-se o apito.

Como usar: do alto-falante para trás

Com o aparelho ligado e mudo, prenda a garra no terra dele e comece com o nível baixo. Injete no alto-falante, depois na entrada do amplificador de potência, depois no controle de volume, no pré, no detector… Onde o apito aparecer, aquele estágio e todos os que vêm depois dele estão bons; o defeito está entre o último ponto que apitou e o primeiro que ficou mudo. É o raciocínio do diagrama de blocos posto em prática.

Segurança: use só em aparelho de baixa tensão, alimentado por pilha, bateria ou fonte isolada, e em pontos de até 50 V contínuos. Nunca encoste a ponta no lado da rede de uma fonte chaveada nem em chassi ligado direto na tomada — veja por que o transformador isolador existe.

Tensões esperadas

Ponto (bateria de 9,0 V) Valor esperado
U1 pinos 8 e 4 9,0 V
U1 pino 5 (CONT) 6,0 V contínuos (2/3 da alimentação)
U1 pinos 2 e 6 (C1) oscila de 3,0 a 6,0 V; o multímetro DC mostra 4,5 V
U1 pino 3 (saída) 986 Hz, de 0,05 a ~7,8 V; o multímetro DC mostra uns 4,1 V
Cursor do RV1 no máximo, com carga de 10 kΩ 4,2 V pico a pico (5,1 V sem carga)
Cursor do RV1 no meio 2,1 V pico a pico
Corrente no LED 3,2 mA

Medido em simulação; na bancada aceite ±10%. No CI real, o nível alto do pino 3 fica até 1,7 V abaixo da alimentação com 100 mA de carga (tabela de características elétricas, página 6); com a carga leve deste circuito, a diferença é menor. Capacitores de poliéster de 5% deixam a frequência entre ~940 e ~1.040 Hz.

Onde costuma dar errado

  1. Componente invertido. O 555 de cabeça para baixo esquenta em segundos — desligue e confira a bolinha. C4 invertido estufa com o tempo; LED invertido só não acende.
  2. Não oscila. Pino 4 solto (o RESET precisa estar no +9 V) ou ponte faltando entre os pinos 2 e 6. Apito muito grave, uns 100 Hz? Puseram um 104 (100 nF) no lugar do 103 em C1.
  3. Aquecimento. Nada deve esquentar. O consumo é de uns 7 a 12 mA, conforme a tensão e o CI (a tabela da TI vai de 2 a 10 mA típicos só para o 555). CI quente é curto na saída ou pino trocado.
  4. Ruído e apito distorcido. Nível alto demais na entrada de um estágio sensível (pré de microfone, entrada de rádio) satura tudo e soa como ronco. Comece com o RV1 quase no zero. Sinal fraco e com zumbido: a garra não está no terra do aparelho.
  5. Alimentação. O NE555 trabalha de 4,5 a 16 V (seção 7.3). A frequência não muda quando a bateria cai; o que cai é a amplitude (3,1 V pico a pico com 7 V). Abaixo de 4,5 V, troque a bateria.

Variações

Circuito do fabricante, conferido em simulação. Ainda não montamos esta placa na bancada. A TI não publica um modelo SPICE do NE555 que rode no ngspice; usamos um modelo comportamental nosso, feito a partir da descrição funcional do datasheet. Ele confere a rede em volta do CI: a simulação deu 986,4 Hz contra 986,3 Hz da fórmula (diferença de 0,01%), nível alto de 0,541 ms contra 0,540 ms, e o capacitor virando exatamente em 3,00 e 6,00 V. Se você montar, mande a foto para a Saber.

Veja também

Achar o estágio mudo é o primeiro passo; se você quer o mesmo raciocínio de estágio por estágio aplicado a placas de verdade, é disso que trata o Mapa do Reparo.