Este é o amplificador de áudio mais montado das revistas dos anos 80 e 90: um único circuito integrado, o TDA2003, dez componentes em volta e uma fonte de 12 V, entregando cerca de 4 W em 4 Ω com 12 V, 6 W com 14,4 V e os famosos 10 W só com alto-falante de 2 Ω. Serve para caixa de som de bancada, rádio de oficina ou para amplificar a saída do celular. Nível: iniciante — não tem ajuste, não tem tensão perigosa e o CI se protege sozinho contra curto na saída, inversão de polaridade e aquecimento.

O circuito não é invenção nossa: é a Figura 16, “Typical application circuit”, página 6 do datasheet TDA2003 (DocID1449 Rev 3, setembro de 2013) da STMicroelectronics, com os valores da tabela “Application suggestions” da página 8 e os limites da tabela elétrica das páginas 3 e 4. Um aviso honesto: a ST marcou esse datasheet como Obsolete Product — ela não fabrica mais o chip. O que se compra hoje é estoque antigo da ST ou a versão de outros fabricantes (a UTC, por exemplo), com a mesma pinagem e a mesma função. Datas e números conferidos em 15 de outubro de 2026.

Circuito integrado TDA2003 da STMicroelectronics em encapsulamento Pentawatt, soldado numa placa de rádio
O TDA2003 original da ST, em Pentawatt, dentro de um rádio: a aba metálica é o terra (pino 3), por isso o dissipador não precisa de isolador. Foto: Raimond Spekking, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0 (recorte).

Conteúdo da Página

O que você vai precisar

Ref. Componente Especificação Qtd.
U1 TDA2003 Pentawatt / TO-220 de 5 pinos (ST ou UTC) 1
C1 Eletrolítico 2,2 µF, 50 V (entrada) 1
C2 Eletrolítico 470 µF, 16 V (realimentação; veja “Variações”) 1
C3 Cerâmico 100 nF, 50 V (junto do pino 5) 1
C4 Eletrolítico 1000 µF, 25 V (acoplamento do alto-falante) 1
C5 Cerâmico ou poliéster 100 nF, 63 V (rede de Zobel) 1
C6 Eletrolítico 100 µF, 25 V (filtro da alimentação) 1
Cx Poliéster 39 nF (ou 47 nF), 63 V 1
R1 Resistor 220 Ω, 1/4 W, 5 % 1
R2 Resistor 2,2 Ω, 1/4 W, 5 % 1
R3 Resistor 1 Ω, 1/2 W, 5 % 1
Rx Resistor 39 Ω, 1/4 W, 5 % 1
J1, J2, J3 Borne KRE 2 vias, passo 5,08 mm (entrada, alto-falante, fonte) 3
— Dissipador 20 °C/W ou melhor (uns 40 × 40 mm com aletas), parafuso M3 1
— Alto-falante 4 Ω (ou 8 Ω), 5 W ou mais 1
— Fonte 12 V, 1 A (ou bateria de carro, 14,4 V) 1

Como funciona

O CI. O TDA2003 é um amplificador operacional de potência: entrada não inversora no pino 1, inversora no 2, saída no 4, alimentação no 5 e terra no 3 (ligado à aba). Ele polariza o pino 1 internamente em cerca de metade da alimentação, por isso a entrada passa por C1 e a saída sai por C4. A tabela da página 3 diz que o pino 4 em repouso fica em 6,9 V típicos com 14,4 V (faixa 6,1 a 7,7 V) e que o consumo sem sinal é de 44 mA (máximo 50).

O ganho. Como em todo operacional não inversor, R1 e R2 definem: Gv = 1 + R1/R2 = 1 + 220/2,2 = 101 vezes, ou 40,1 dB — o datasheet garante 39,3 a 40,3 dB com esses valores. O C2 em série com R2 derruba o ganho para 1 em corrente contínua, e é isso que mantém o pino 4 na metade da fonte sem ajuste nenhum.

O agudo e a estabilidade. O par Cx + Rx, em paralelo com R1, reduz o ganho nas frequências altas. A fórmula da página 8 é Cx = 1/(2π·B·R1): para B = 15 kHz dá 48 nF, e o datasheet usa 39 nF (18,5 kHz pela fórmula; na simulação, com o próprio CI na conta, a queda de 3 dB fica em 14,4 kHz). Rx = 20·R2 = 44 Ω, arredondado para 39 Ω. Já C5 + R3 (a rede de Zobel) mostram ao CI uma carga resistiva onde a bobina do alto-falante vira indutor — sem eles o amplificador pode oscilar e esquentar sem tocar nada.

O grave — e uma pegadinha do próprio datasheet. C4 com a carga forma um passa-altas: fL = 1/(2π·RL·C4) = 1/(2π·4·1000 µF) = 40 Hz. Mas C2 e R2 formam outro, e esse corta mais alto: fL = 1/(2π·R2·C2) = 1/(2π·2,2·470 µF) = 154 Hz. A tabela diz “resposta de 40 a 15.000 Hz” com esses mesmos valores; a conta e a simulação (159 Hz) discordam dela. Não é defeito, é o som de rádio de carro para o qual ele nasceu: menos grave, mais tolerante ao alto-falante pequeno. Quem quer grave troca o C2 — está em “Variações”.

A potência. Com 14,4 V e 4 Ω a tabela dá 6 W (mínimo 5,5) a 10 % de distorção, já ceifando; 10 W só com 2 Ω. Com 12 V a Figura 3 mostra uns 4 W em 4 Ω, e a simulação dá 4,1 W a 10 % de distorção e 3,2 W a 1 %. Numa fonte de 12 V, espere 3 a 4 W limpos — alto para uma bancada.

Esquema do amplificador de áudio com TDA2003: C1 na entrada, R1, R2, C2, Cx e Rx na realimentação, C4 para o alto-falante, rede de Zobel C5 e R3, e C3 e C6 na alimentação
Esquema redesenhado conforme a Figura 16 do datasheet TDA2003 (DocID1449 Rev 3) da STMicroelectronics. C6 é o eletrolítico de 100 µF que a figura mostra ao lado do C3.

A placa de circuito impresso

A placa foi desenhada no KiCad a partir do mesmo esquema, com os encapsulamentos reais da lista, em face única (66 × 44 mm), trilhas de 0,8 mm e folga de 0,4 mm, medidas que aguentam a transferência térmica caseira. As ligações foram conferidas pino a pino contra o datasheet e o roteamento fechou com 71 trilhas, nenhuma via, nenhum jumper e nenhuma ligação pendente. O CI fica no alto, com a aba para a borda, para o dissipador ficar em pé e fora da placa. A furação do CI é a de pinos em linha (passo 1,7 mm), a da versão UTC; se o seu for o Pentawatt V da ST, com os pinos 2 e 4 deslocados para trás, dobre-os de leve para alinhar ou troque o encapsulamento no projeto KiCad.

Placa de circuito impresso do amplificador com TDA2003 vista de cima, com a serigrafia dos componentes e as trilhas de cobre
Vista de cima: a serigrafia com a posição de cada componente e, em azul, as trilhas da face de baixo. O “+” marca o positivo de cada eletrolítico; o pino 1 do CI é o quadrado.
Lado do cobre da placa do amplificador com TDA2003
O lado do cobre. Para transferir, use o PDF em escala 1:1 abaixo.

Arquivos da placa:

Montagem

  1. Resistores primeiro (R1, R2, R3, Rx), depois C3, C5 e Cx. Confira R2 (2,2 Ω: vermelho-vermelho-dourado) — com 22 Ω no lugar o ganho cai para 11 e o som some.
  2. Eletrolíticos com polaridade: o “+” de C1 vai para o pino 1 (que fica em uns 6 V; a entrada fica em 0 V); o “+” de C2 para o pino 2; o “+” de C4 para o pino 4; o “+” de C6 para o +Vs.
  3. O CI por último, já parafusado no dissipador. Solde rápido — o datasheet limita a 260 °C por 12 segundos.
  4. Bornes: J1 (entrada) à esquerda, J3 (fonte) e J2 (alto-falante) à direita. O terra da entrada e o do alto-falante só se encontram na placa, nunca por fio externo — é o que evita o zumbido de laço de terra.
  5. Primeiro teste sem sinal e sem alto-falante: ligue os 12 V com um amperímetro em série; deve marcar uns 44 mA. Meça o pino 4: metade da fonte. Só então ligue o alto-falante e o sinal.

Calor. Na simulação a 12 V o CI dissipa no máximo 2,4 W (com uns 2 W na carga — o pior caso não é o volume máximo); a 14,4 V, 3,4 W. Com os 3 °C/W junção-cápsula da página 2 e um dissipador de 20 °C/W, a junção fica abaixo de 110 °C. Sem dissipador o CI entra em proteção térmica e o volume cai sozinho. Na protoboard o CI não entra na matriz (passo de 1,7 mm): solde cinco fios nele.

Gráficos da simulação: resposta em frequência do amplificador TDA2003 com três valores de C2, e distorção em função da potência a 12 V e 14,4 V
Simulação no ngspice. À esquerda, o corte de grave muda com C2 (470 µF é o valor do datasheet). À direita, onde o amplificador começa a ceifar com 12 V e 14,4 V em 4 Ω, e com 12 V em 8 Ω.

Tensões esperadas

Multímetro, sem sinal, 12 V de alimentação e alto-falante de 4 Ω ligado. Valores medidos em simulação; na bancada aceite ±10 %.

Ponto 12 V 14,4 V O que indica
Pino 5 (+Vs) 12,0 V 14,4 V a fonte chegou ao CI
Pino 4 (antes do C4) 5,7 V 6,9 V metade da fonte: CI polarizado (datasheet: 6,1 a 7,7 V com 14,4 V)
Pinos 1 e 2 5,7 V 6,9 V iguais ao pino 4: realimentação fechada
Ponto B (depois do C4) 0 V 0 V nada de contínua no alto-falante; se houver, C4 está em curto
Consumo em repouso 44 mA 44 mA datasheet: 44 típ., 50 máx.
Consumo com 1 W na carga (senoide) 0,29 A 0,29 A a corrente sobe com o volume
Consumo no limite (10 % de distorção) 0,52 A (4,1 W) 0,61 A (6,1 W) fonte de 1 A sobra
Ganho a 1 kHz 100 × (39,9 dB) 100 × 20 mV de pico na entrada dão 2 V de pico no pino 4

Sobre a simulação: a ST não publica modelo SPICE do TDA2003, então usamos um subcircuito comportamental com os parâmetros das páginas 3 e 4. Ganho (39,94 dB, dentro dos 39,3 a 40,3 garantidos), corte agudo e consumo são checagens de verdade; a potência a 10 % de distorção (6,1 W em 4 Ω e 10,5 W em 2 Ω com 14,4 V) reproduz a tabela porque o estágio de saída foi ajustado para isso.

Onde costuma dar errado

  1. Eletrolítico invertido. C1 ao contrário tira o pino 4 da metade da fonte; C4 ao contrário esquenta e estoura. Confira os quatro “+” antes de ligar.
  2. Oscilação (apito, CI quente sem som). C5 + R3 longe da saída, C3 longe do pino 5 ou Rx/Cx faltando — a página 8 lista exatamente esses três como “danger of oscillation”. Com fio longo até a caixa, a rede de Zobel fica na placa.
  3. Aquecimento e volume que cai sozinho. Falta de dissipador, ou 2 Ω em 14,4 V. É a proteção térmica atuando: melhore o dissipador.
  4. Zumbido de 60/120 Hz. Fonte mal filtrada (o CI rejeita 36 dB de ondulação, não tudo) ou terra da entrada passando pelo terra do alto-falante. Fonte com pelo menos 2200 µF e terras encontrando-se só na placa.
  5. Nada acontece e o consumo é zero. Fonte invertida — o CI aguenta (página 7: suporta inversão por mais tempo do que um fusível de 1 A leva para abrir), mas não funciona. Acima de 18 V ele também desliga: é o limite de operação da página 1.

Variações

Circuito do fabricante, conferido em simulação; se você montar, mande a foto para a Saber.

Veja também

Se você quiser achar esse mesmo pino 4 em “metade da fonte” dentro do rádio ou da TV que chegou morta na sua bancada — e saber o que significa quando ele não está lá —, é disso que trata o Mapa da Placa.