Este é o testador de continuidade de bancada: você encosta as duas pontas num fio, numa trilha ou num fusível e, se a ligação estiver boa, ele apita e acende um LED — sem precisar olhar para o visor de multímetro nenhum. Serve para conferir cabos, trilhas, chaves e fusíveis com as mãos livres. Nível: iniciante — um LM358, um transistor, um buzzer e onze componentes passivos, sem nenhum ajuste.

Todo o circuito sai do datasheet SNOSBT3J (revisão de março de 2022) da Texas Instruments para o LM358, na seção de aplicações típicas com alimentação simples de 5 V: o comparador com histerese da Figura 8-15 (pág. 17), o acionador de lâmpada com transistor da Figura 8-6 (pág. 15) e o seguidor de tensão da Figura 8-9 (pág. 16). O divisor de entrada, o filtro e o limiar são cálculo nosso, explicado abaixo; o datasheet atual da peça é o SLOS068AB (outubro de 2024).

Conteúdo da Página

O que você vai precisar

Ref. Componente Valor Especificação Qtd.
U1 Amplificador operacional duplo LM358 DIP-8 (LM358N, LM358P ou equivalente); use soquete 1
Q1 Transistor NPN BC548 TO-92 (BC547/BC337 também servem) 1
R1, R5 Resistor de filme 1 kΩ 1/4 W, 1% (definem o limiar) 2
R4 Resistor de filme 68 kΩ 1/4 W, 1% 1
R2, R3, R6, R9 Resistor de filme 10 kΩ 1/4 W, 5% (marrom-preto-laranja) 4
R7 Resistor de filme 10 MΩ 1/4 W, 5% (marrom-preto-azul) 1
R8 Resistor de filme 1 kΩ 1/4 W, 5% 1
R10 Resistor de filme 330 Ω 1/4 W, 5% (laranja-laranja-marrom) 1
C1, C2 Capacitor cerâmico 100 nF 50 V, passo 5 mm (código 104) 2
BZ1 Buzzer ativo 5 V 12 mm, pinos a 7,6 mm, com oscilador interno (o “+” é o pino mais longo) 1
D1 LED vermelho 5 mm comum 1
J1, J2 Borne de parafuso 2 vias passo 5,08 mm 2
— Pontas de prova — um par de pontas de multímetro (ou fios com garra jacaré) 1
— Alimentação 5 V carregador USB de celular ou 3 pilhas AA (4,5 V) com chave 1
Circuito integrado LM358N em encapsulamento DIP-8 sobre fundo claro
Um LM358N em DIP-8. O pino 1 fica à esquerda do chanfro em meia-lua, embaixo nesta foto; a contagem segue no sentido anti-horário, vista de cima. Foto: Retired electrician, Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

Como funciona

A corrente de prova. R1 liga as pontas ao +5 V. Com as pontas abertas, a ponta vermelha fica em 4,76 V; quando você encosta numa resistência Rx, forma-se um divisor e a tensão cai para 5 × Rx / (1.000 + Rx). Em curto, passam no máximo 5 mA.

O divisor de entrada — o detalhe que o datasheet ensina. O LM358 aceita entradas desde 0 V (é o que o deixa medir tão perto do terra), mas a nota 5 da tabela elétrica (pág. 5) avisa que o limite de cima do modo comum é V+ − 1,5 V, ou seja, 3,5 V com 5 V de alimentação. Com as pontas abertas teríamos 4,76 V na entrada, fora da faixa. Por isso R2 e R3 dividem a tensão por dois (no máximo 2,4 V), e C2 forma com eles um filtro de 0,5 ms que engole os chiados do contato da ponta.

A referência e o limiar. R4 e R5 tiram do mesmo +5 V uma referência de Vref = 5 × 1 k / 69 k = 72,5 mV. O comparador U1A apita quando a entrada inversora (metade da tensão das pontas) cai abaixo dela:

Rx = R1 × 2·Vref / (Vcc − 2·Vref) = 1.000 × 0,145 / 4,855 ≈ 30 Ω

Como pontas e referência são frações da mesma alimentação, o limiar não muda com a pilha: 5,0 V e 4,5 V deram 0,1 Ω de diferença na simulação.

A histerese. É a Figura 8-15 sem tirar nem pôr: R6 (10 kΩ) leva a referência à entrada não inversora e R7 (10 MΩ) devolve um pouquinho da saída. Quando o comparador dispara, a referência sobe uns 4 mV — uma faixa de cerca de 2 Ω em que o testador não fica indeciso — sem ela, uma ponta raspando em solda oxidada faz o buzzer gaguejar.

O acionamento. O buzzer gasta perto de 30 mA, muito para a saída do amp op; por isso, como na Figura 8-6, a saída passa por R8 até a base de Q1, que liga o buzzer e o LED (com R10) ao terra. R9 garante que o transistor fique cortado quando a saída está baixa. O canal livre, U1B, fica como seguidor (Figura 8-9) preso à referência, para não oscilar à toa.

Esquema do testador de continuidade com LM358: R1 alimenta as pontas, divisor R2 R3 com C2 na entrada inversora, referência R4 R5 com histerese R6 R7, saída por R8 para o transistor BC548 que liga o buzzer e o LED
Esquema redesenhado conforme as Figuras 8-15, 8-6 e 8-9 do datasheet SNOSBT3J da Texas Instruments (LM358). O divisor de entrada, o filtro e os valores do limiar são cálculo nosso.

A conferência em simulação

Simulamos o circuito no ngspice com o modelo oficial da TI para o LM358 (SNOM268C), fazendo a resistência entre as pontas subir de 1 a 61 Ω e descer de volta. O buzzer entrou como carga de 167 Ω (30 mA). Resultado: o testador cala em 32,7 Ω quando a resistência sobe e volta a apitar em 30,5 Ω quando ela desce. A conta acima, somando o offset que o modelo traz embutido (1,8 mV), dá 32,3 Ω e 30,6 Ω — diferença abaixo de 2%.

Gráfico da simulação: a saída do LM358 fica em 3,7 V até cerca de 32 ohms e cai a zero; na volta, só sobe de novo abaixo de 30,5 ohms
Simulação ngspice com o modelo SNOM268C da TI. À esquerda, a saída com 5,0 V e 4,5 V de alimentação (o limiar é o mesmo); à direita, o laço de histerese de cerca de 2 Ω.

Um aviso honesto sobre a precisão: o LM358 comum tem offset de até 7 mV (tabela 6.6, pág. 7). No pior caso, isso empurra o limiar em uns ±3 Ω. Por isso pedimos 1% em R1, R4 e R5: o resto da conta fica firme.

A placa de circuito impresso

A placa abaixo foi desenhada no KiCad a partir do mesmo esquema, com os encapsulamentos reais dos componentes da lista, em face única (68 × 48 mm), trilhas de 0,8 mm e folga de 0,4 mm. As ligações foram conferidas pino a pino contra o datasheet (LM358: pino 8 = +V, pino 4 = GND; BC548: coletor, base e emissor da esquerda para a direita, com a face chata para você) e o roteamento fechou com 117 trilhas, nenhuma via, nenhum jumper e nenhuma ligação pendente. As pontas e a alimentação entram pelos bornes.

Placa de circuito impresso do testador de continuidade com LM358, vista de cima, com a serigrafia dos componentes e as trilhas de cobre
Vista de cima: em azul, as trilhas da face de baixo. J1 = alimentação (pad quadrado = +5 V); J2 = pontas (pad quadrado = ponta vermelha, o outro = ponta preta). No buzzer, o pad quadrado é o “+”.
Lado do cobre da placa do testador de continuidade com LM358
O lado do cobre. Para transferir, use o PDF em escala 1:1 abaixo.

Arquivos da placa:

Montagem

Monte do mais baixo para o mais alto: resistores, capacitores, soquete, transistor, LED, bornes e o buzzer por último. Confira as polaridades: chanfro do LM358, face chata do BC548, “+” do buzzer (marcado no corpo) e o catodo do LED no lado chanfrado. Nada aqui esquenta: a corrente total é de 1 mA em espera e 47 mA apitando. Só ponha o CI no soquete depois de medir 5 V entre os pinos 8 e 4.

Tensões esperadas

Ponto Pontas abertas Pontas em curto
Ponta vermelha (J2) 4,76 V 0 V
U1 pino 2 (entrada −) 2,38 V 0 V
Nó REF (U1 pino 5) 72 mV 73 mV
U1 pino 3 (entrada +) 73 mV 77 mV
U1 pino 1 (saída) 0,02 V 3,68 V
Base de Q1 0,02 V 0,79 V
Coletor de Q1 5,0 V 0,08 V
Corrente total 1,0 mA 47 mA

Medido em simulação, com 5,0 V; na bancada, aceite ±10%.

Onde costuma dar errado

  1. Componente invertido: buzzer ao contrário não apita; BC548 virado deixa o LED aceso fraco ou apagado. Pelo coletor de Q1 você descobre: deve estar em 5 V com as pontas abertas.
  2. Apita sempre ou nunca: confira R4 (68 kΩ) e R5 (1 kΩ) — trocados, a referência vai a 4,9 V e o testador apita sem parar. Pino 2 e pino 3 trocados dão o defeito contrário.
  3. Oscilação no limiar: buzzer gaguejando é histerese faltando — R7 aberto ou mal soldado. Se puseram 10 kΩ no lugar dos 10 MΩ (as faixas se parecem), acontece o contrário: apita até em alguns quilo-ohms.
  4. Ruído e falso apito: fios de ponta longos pegam interferência; C2 resolve, desde que esteja soldado perto do pino 2.
  5. Alimentação: nunca teste um circuito ligado — a tensão dele entra pelas pontas. E com pilhas abaixo de uns 4 V o LED e o buzzer ficam fracos, embora o limiar continue no lugar.

Uma consequência útil do projeto: um diodo de silício em condução tem uns 0,6 V, bem acima do limiar de 0,145 V. Ou seja, o testador não apita através de diodo, e você não confunde junção com curto.

Variações

Circuito do fabricante, conferido em simulação; se você montar, mande a foto para a Saber.

Veja também

Bipar trilha por trilha é o começo de qualquer reparo; se você quer saber por onde começar numa placa de verdade, é disso que trata o Mapa do Reparo.