“Queimou sozinho depois da tempestade.” Todo técnico ouve essa frase toda semana. Neste capítulo mostramos o que de fato chega pela tomada: o surto elétrico que um raio provoca a quilômetros de distância, a tensão que a distribuidora pode entregar sem estar errada, o pico que vem quando a energia volta e o defeito mais destruidor de todos, que não depende de raio nenhum: o neutro que some.

Os três capítulos anteriores trataram do ambiente da bancada: a eletricidade estática, a umidade e o calor. Agora olhamos o fio que alimenta a placa, com números de duas normas da ANEEL (PRODIST Módulo 8 e REN 1.000/2021) e de um catálogo técnico de fabricante. Última verificação das fontes: 18 de outubro de 2026.

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O que a tomada promete (e o que a ANEEL aceita)

Na maior parte do Brasil a rede de baixa tensão é 220/127 V: entre uma fase e o neutro há 127 V; entre duas fases, 220 V. Já vimos no capítulo sobre corrente alternada que esses números são valores eficazes — o pico da senoide de 127 V passa de 179 V.

Mas “127 V” é o nominal, não uma garantia de exatidão. O PRODIST Módulo 8 (anexo VIII da REN 956/2021) divide a tensão medida em três faixas. Na Tabela 4, para ligações em 220/127 V:

Faixa Rede de 127 V Rede de 220 V
Adequada 117 a 133 V 202 a 231 V
Precária 110 a 117 V ou 133 a 135 V 191 a 202 V ou 231 a 233 V
Crítica abaixo de 110 V ou acima de 135 V abaixo de 191 V ou acima de 233 V

Ou seja: 131 V na tomada está dentro da regra, e equipamento bem projetado tem de funcionar nessa faixa inteira.

Gráfico com duas barras horizontais coloridas mostrando as faixas de tensão crítica, precária e adequada definidas pela ANEEL para redes de 127 V e de 220 V
As faixas de tensão do PRODIST Módulo 8 para o sistema 220/127 V: verde é adequada, laranja é precária, vermelho é crítica. Repare que a faixa precária de cima é estreita — passou de 135 V (ou 233 V), a tensão já é crítica. Gráfico: Saber da Eletrônica, com os valores da Tabela 4 do Módulo 8.

A mesma norma diz como a ANEEL mede isso: são 1.008 leituras de 10 minutos, o equivalente a uma semana inteira. Dessas leituras saem dois indicadores, a duração relativa da tensão precária (DRP) e da crítica (DRC), com limites de 3% e 0,5% do tempo. Passou disso, a distribuidora tem de corrigir e compensar o consumidor na fatura.

Na bancada, a consequência é: uma leitura isolada não prova nada. Se o cliente reclama que “a luz fica fraca à noite”, meça à noite, ou registre por horas, como mostramos no guia de registro com o multímetro no PC. O consumidor também pode reclamar direto com a distribuidora: pelo Módulo 8, ela tem de fazer uma inspeção com medição no ponto de ligação e informar o resultado em até 15 dias. Se o cliente não concordar, pode pedir a medição de 168 horas — que é cobrada se a tensão estiver dentro das faixas, então vale medir antes.

Os eventos rápidos: afundamento, elevação e interrupção

Além da tensão “de sempre”, a norma trata das variações de tensão de curta duração, as VTCD — tudo o que dura menos de 3 minutos. A Tabela 5 do Módulo 8 dá nome a cada uma, sempre em relação à tensão de referência (1,0 pu = 100%):

O afundamento faz o aparelho reiniciar ou travar: a fonte perde a regulação e o processador leva um reset no meio do trabalho — origem de muito firmware corrompido em roteador e TV box. A elevação aquece o varistor e os capacitores de entrada.

Quando a energia volta: o pico que ninguém vê

Quando a energia volta, todos os aparelhos da rua ligam juntos: cada fonte chaveada carrega de uma vez o seu capacitor de entrada, cada compressor puxa várias vezes a corrente normal para partir, e a rede oscila até se acomodar.

Na partida, o capacitor de entrada descarregado se comporta como um curto, e só o termistor NTC (quando existe) limita a corrente. Se o NTC ainda está quente — como nas piscadas seguidas —, a resistência dele está baixa e ele não limita quase nada. É por isso que o fusível, a ponte retificadora e o próprio NTC queimam tanto “na volta da luz”.

A dica prática para o cliente é simples e não custa nada: em queda de energia, desligue os aparelhos sensíveis da tomada e espere a rede se estabilizar alguns minutos depois que a luz voltar.

O raio que cai longe e queima perto

Agora o vilão famoso. O raio não precisa cair na casa para queimar o que está nela. O catálogo técnico de DPS da Siemens explica os dois caminhos:

O mecanismo é o do transformador: a corrente enorme do raio cria um campo magnético que varia em microssegundos e induz tensão em todo fio comprido por perto — rede elétrica, cabo de antena, fio de telefone, cabo de rede entre prédios.

Quanto aguenta um aparelho? A tabela de suportabilidade a impulsos da NBR 5410 (Tabela 31), reproduzida no catálogo da Siemens, dá a resposta para a rede 127/220 V:

Categoria Onde fica Impulso que precisa suportar
IV Entrada da instalação (medidor, disjuntor geral) 4 kV
III Circuitos de distribuição e tomadas 2,5 kV
II Equipamento de utilização (eletrodomésticos, eletrônicos) 1,5 kV
I Produtos especialmente protegidos 0,8 kV

Ou seja: o seu notebook, a TV e o roteador são feitos para aguentar um impulso de 1,5 kV. A fiação da casa aguenta mais que o aparelho. Num surto de 3 kV, a parede sobrevive e a placa morre — e é exatamente isso que o cliente vê.

DPS e filtro de linha: o que protege de verdade

A peça que faz esse trabalho é o DPS — Dispositivo de Proteção contra Surtos. Por dentro, quase sempre é um varistor grande, o mesmo componente que vimos no capítulo das proteções da placa: abaixo de uma certa tensão ele praticamente não conduz; acima, conduz muito e desvia o surto para o terra.

Quadro de distribuição com dois porta-fusíveis brancos e dois DPS amarelos de trilho DIN, com as especificações In 20 kA, Imax 40 kA e Up 2,10 kV impressas na frente
Dois DPS (os módulos amarelos) instalados num quadro de distribuição europeu, ao lado dos porta-fusíveis. Na frente de cada um estão os números que importam: In = 20 kA (8/20), Imax = 40 kA (8/20) e Up ≤ 2,10 kV. A janela vermelha é o indicador de estado — quando o varistor interno se esgota, ela muda de cor. Foto: Fabexplosive, Wikimedia Commons, CC BY 3.0 (arquivo original).

Os três números da etiqueta, segundo o catálogo da Siemens:

Dois detalhes de instalação mudam tudo. Primeiro, o catálogo manda que os condutores de ligação do DPS tenham no máximo 0,5 m, sem curvas nem laços: cada centímetro de fio tem indutância, e num pulso de microssegundos essa indutância soma tensão em cima do Up. Segundo, DPS sem terra não tem para onde mandar o surto. Volte ao capítulo do terra da placa: proteção é um caminho para a corrente, e caminho sem destino não é caminho.

E o “filtro de linha”? Abra um. Os bons têm um ou mais varistores (os discos azuis ou amarelos) ligados entre fase, neutro e terra; os baratos às vezes têm só um fusível, um LED e uma chave — são extensões com nome bonito. Mesmo o bom tem limite: o varistor de filtro é bem menor que o de um DPS de quadro e se desgasta a cada surto, sem avisar.

A proteção completa, como recomenda o catálogo, é em cascata: DPS na entrada da instalação, DPS no quadro de distribuição e proteção fina perto do equipamento sensível. E vale lembrar o que nenhum protetor da tomada resolve: o surto que entra pelo cabo de antena, de telefone ou de rede. Aparelho ligado a dois sistemas ao mesmo tempo (TV com antena e tomada, modem com linha e tomada) fica no meio de uma diferença de potencial e queima pela porta de sinal.

O neutro que some: o defeito que queima a casa inteira

Agora o problema que muita gente põe na conta do raio e não tem nada a ver com ele. Numa casa bifásica 220/127 V chegam duas fases e um neutro. As tomadas de 127 V ficam divididas: umas entre a fase A e o neutro, outras entre a fase B e o neutro. Enquanto o neutro está ligado, cada tomada recebe os seus 127 V, independentemente do que está ligado na outra.

Se o neutro se rompe — conexão oxidada no poste, emenda solta no padrão de entrada, fio que esquentou e abriu —, as cargas das duas fases ficam em série, ligadas entre fase A e fase B, nos 220 V. E a tensão se divide pela Lei de Ohm, não por igual.

Fizemos a conta com um exemplo simples, tratando as cargas como resistências: um aquecedor de 1.500 W na fase A e uma TV de cerca de 100 W na fase B, ambos de 127 V.

A TV de 127 V passa a receber mais de 200 V, e o aquecedor quase não esquenta. Uma fonte chaveada real não é um resistor, então o número exato muda — mas a lógica não: quem consome pouco recebe a tensão alta. O sintoma clássico é exatamente esse: lâmpadas de um lado da casa ficam fortíssimas e as do outro, fracas; e logo depois começam a queimar carregador, roteador, TV e geladeira, todos do mesmo lado. O chuveiro de 220 V, ligado entre as duas fases, continua normal — o que confunde.

Se o cliente relata luz mudando de brilho de um cômodo para outro, a primeira ligação é para o eletricista ou para a distribuidora, não para a assistência técnica.

O que a placa mostra depois da tempestade

Cada tipo de agressão deixa uma assinatura diferente na placa. Com o multímetro e um pouco de atenção, dá para saber quase sempre o que aconteceu:

O que você encontra Causa mais provável
Varistor da entrada estourado ou rachado, fusível aberto, resto da fonte bom Surto pela rede — a proteção funcionou e se sacrificou
Fusível, ponte retificadora e transistor chaveador em curto Surto maior que a proteção, ou sobretensão prolongada (neutro rompido)
Fonte boa, mas porta de antena, Ethernet ou linha telefônica morta Surto pela porta de sinal
Vários aparelhos da mesma casa, todos de 127 V, sem chuva Neutro rompido
Aparelho liga e trava, firmware corrompido, sem nada queimado Afundamento ou interrupção no meio de uma gravação

Nos casos de surto, siga a mesma lógica do guia para achar curto na placa: troque o óbvio (varistor, fusível) e nunca religue direto. Alimente a placa com uma lâmpada em série ou com a fonte de bancada limitando corrente. Surto raramente queima uma peça só, e trocar só o fusível costuma terminar em outro estalo.

Quando a culpa é da distribuidora: o ressarcimento

Este é o trecho que o técnico mais precisa saber explicar ao cliente, porque muita gente paga o conserto sem saber que tinha direito a receber de volta. A Resolução Normativa ANEEL 1.000/2021 trata do assunto nos artigos 599 a 621. Os pontos principais:

Esse último ponto é com você. Se o aparelho chegou depois de uma queda de energia, guarde as peças queimadas, descreva o defeito por escrito e emita nota. Um laudo honesto — “varistor de entrada estourado e fusível aberto, compatível com sobretensão vinda da rede” — pode valer mais para o cliente do que o próprio conserto. Laudo exagerado é contestável: a distribuidora pode recusar se provar que não há relação com a rede.

Onde comprar a proteção e o instrumento — DPS para o quadro (instalado por eletricista, com terra) e um multímetro para medir a tomada antes de culpar a placa:

Como Associados da Amazon, recebemos por compras qualificadas feitas pelos links acima — você não paga nada a mais por isso.

Ressalva honesta: DPS mexe no quadro de energia. A escolha da classe, da tensão Uc e do esquema de aterramento é trabalho de eletricista, de acordo com a NBR 5410 — não é instalação para fazer no improviso.

Perguntas frequentes

Tirar o aparelho da tomada durante a tempestade adianta? Adianta, e é a única proteção que funciona contra qualquer surto. Mas tire também o cabo de antena e o cabo de rede: o surto entra por qualquer fio comprido, não só pela tomada.

Nobreak protege contra raio? Depende do modelo. Muitos nobreaks domésticos deixam a rede passar direto enquanto ela está boa, com varistores na entrada como um filtro de linha. Ajudam contra queda e afundamento; contra surto forte, valem o que vale o varistor.

Meu aparelho é bivolt automático. Ele sobrevive ao neutro rompido? A fonte chaveada “full range” (100–240 V) costuma aguentar os 200 e poucos volts do exemplo, porque eles ficam dentro da faixa dela. O problema são os aparelhos de 127 V sem fonte universal — motores, transformadores, fontes lineares, eletrodomésticos com chave seletora — e qualquer coisa que receba mais do que 240 V.

Preciso levar o aparelho queimado até a distribuidora? Não necessariamente. Pela REN 1.000, a distribuidora é quem faz a verificação no local ou retira o equipamento para análise (art. 613), e o processo deve acontecer sem que o consumidor precise sair do município da unidade consumidora, salvo se ele preferir (art. 601).

Conclusão

Três ideias para levar deste capítulo. A tomada tem tolerância: 117 a 133 V é tensão adequada pela ANEEL, e uma leitura isolada não prova defeito na rede. O raio queima por indução, de longe, com pulsos maiores que os 1,5 kV que um eletrodoméstico precisa aguentar — e só DPS com terra e cabos curtos dá conta disso. E a que mais muda o diagnóstico: vários aparelhos de 127 V queimados na mesma casa, sem chuva, é neutro rompido até prova em contrário.

No próximo capítulo a rede elétrica vem para dentro da bancada: a segurança do técnico. Por que a placa da fonte chaveada dá choque mesmo desligada, para que serve o transformador isolador, o que a lâmpada em série protege — e o que ela não protege.

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