Uma câmera térmica de celular é uma caixinha de 30 gramas que entra na porta USB-C e mostra, em segundos, qual componente da placa está esquentando. Para quem repara notebook, TV ou fonte, ela responde à pergunta mais cara do diagnóstico: onde está o curto. Abaixo: os dois modelos que dominam a bancada no Brasil (TOPDON TC001 e InfiRay P2 Pro), os aplicativos oficiais, o software de Windows, três programas livres que leem a câmera no PC e no Raspberry Pi, e os cinco problemas que mais travam o iniciante.

Última verificação: 14 de outubro de 2026. Todos os arquivos citados foram abertos e conferidos por nós nesta data; não hospedamos nenhum deles. Não vendemos nenhuma dessas câmeras: a análise é isenta.

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O que é e por que serve para reparo de placa

As duas câmeras usam um sensor de 256 × 192 pixels com pitch de 12 µm, sensível à faixa de 8 a 14 µm (infravermelho de onda longa). Pela ficha oficial da TOPDON, o TC001 tem NETD menor que 40 mK a 25 °C, 25 quadros por segundo, duas faixas de medição (−20 a 150 °C e 150 a 550 °C), exatidão de ±2 °C ou ±2 % da leitura (vale o maior), pesa 30 g e consome 0,35 W, tudo puxado da porta USB do celular. A própria TOPDON diz, na página do produto, que o aparelho “é especialmente adequado para objetos cuja temperatura superficial é difícil de distinguir, como placas de circuito”.

Traduzindo para a bancada: 40 mK significa que a câmera distingue diferenças de 0,04 °C entre dois pontos vizinhos. Um MOSFET em curto fica dezenas de graus acima do resto da placa em poucos segundos de alimentação; um capacitor cerâmico em fuga, uns poucos graus. Os dois aparecem como uma mancha clara no meio de um fundo escuro, sem precisar encostar ponta de prova em nada.

Termografia de um Raspberry Pi 3 Model B: o processador aparece como ponto branco e vermelho sobre a placa em azul e verde, com escala de 21 a 90 graus Celsius
O que uma câmera térmica mostra numa placa alimentada: o processador do Raspberry Pi 3 chega perto de 90 °C e vira o ponto branco; o resto da placa fica em azul e verde. Um curto se comporta igual: um ponto quente onde não deveria haver. Termografia: Gareth Halfacree, Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.

Downloads oficiais: o que baixar

Nenhum dos dois fabricantes publica driver: no Android e no Windows a câmera aparece como webcam UVC, o mesmo mecanismo do microscópio USB. O que você instala é o aplicativo que interpreta o vídeo e converte em temperatura.

Software Onde baixar (oficial) Sistema Estado em 14/10/2026
TC001 (app da TOPDON) Google Play Android 6.0 ou superior, com OTG Atualizado em 02/11/2025; mais de 100 mil downloads
TCView (programa da TOPDON) Página do TC001, aba “Download” Windows A TOPDON não publica versão nem checksum na página
P2 Pro (app da InfiRay) Google Play Android (há versão para iPhone com conector Lightning) Atualizado em 15/03/2024; mais de 50 mil downloads
PyThermalCamera GitHub (Les Wright) Linux e Raspberry Pi Apache 2.0; último commit em julho de 2023
PyThermalCamera-Windows GitHub (releases) Windows 11 e Raspberry Pi v1.0.0 de 27/03/2026; zip de 60,6 MB
Thermal-Camera-Redux GitHub Linux e Raspberry Pi (C/C++) v0.9.3; último commit em outubro de 2024
P2Pro-Viewer GitHub (LeoDJ) Windows e Linux (Python) MIT; marcado como trabalho em andamento

Dois detalhes que medimos. O pacote PyThermalCamera_v1.0.0.zip tem SHA-256 afa239fe…8f6b3b, traz 167 arquivos (154,9 MB descompactados), um ptc.exe de 4,9 MB sem assinatura Authenticode (o SmartScreen vai reclamar, e é esperado) e perfis prontos em devices/TC001.json e TS001.json. Sobre o P2 Pro: a descrição oficial do app fala em “detector de 12 µm e chip ASIC próprio”, o mesmo tipo de módulo do TC001; por isso os programas livres escritos para um funcionam no outro, como declaram os próprios autores.

Página oficial do TOPDON TC001 com o menu Overview, Specs, Comparison, Download, Accessories, Video e FAQ e a câmera azul com a marca TCView
A página oficial do TC001: o programa de Windows se chama TCView, e o manual manda baixá-lo pela aba “Download” desta página. Captura feita por nós em 14 de outubro de 2026.

Instalação no Android (TC001 e P2 Pro)

  1. Instale o app pelo Google Play (links na tabela). O manual da TOPDON pede Android 6.0 ou superior e celular com OTG.
  2. Encaixe a câmera direto na porta USB-C ou use o cabo adaptador da caixa como extensão. No TC001, o LED lateral acende em azul fixo quando o celular reconheceu o aparelho.
  3. Abra o app e aceite as permissões de câmera e armazenamento; sem elas a tela fica preta. O canto superior direito mostra “Connected”.
  4. Escolha a faixa de temperatura: −20 a 150 °C para placa; 150 a 550 °C só para ferro de solda, estação de ar quente ou motor.
  5. Em “Correção de temperatura”, ajuste emissividade e distância. Para placa, mantenha a câmera a uns 20 ou 30 cm e aponte perpendicular.

Instalação no Windows: TCView ou software livre

Caminho oficial (TC001): na página do produto, clique em “Download”, baixe e instale o TCView. Conecte a câmera pelo cabo adaptador da caixa (ponta fêmea USB-C na câmera, ponta macho no PC; no PC sem USB-C, use o adaptador USB-A que acompanha). A tela do TCView tem paleta de cores, emissividade, distância, unidade, ferramenta de ponto, linha e área, troca de faixa (−20 a 150 ou 150 a 550 °C), botão “Refresh” para calibrar à mão e um gráfico de temperatura em tempo real.

Caminho livre: baixe o zip do PyThermalCamera-Windows, descompacte e rode pelo prompt, apontando o perfil da câmera e o índice de vídeo:

ptc.exe device devicesTC001.json -i 0

Se a câmera não for a única webcam, troque o -i 0 por 1 ou 2. As teclas são as mesmas do programa original: m troca a paleta, s/x ajustam o limiar das etiquetas de máximo e mínimo, r/t gravam e param, u alterna Celsius e Fahrenheit, q sai.

Linux e Raspberry Pi: como a câmera entrega a temperatura

No Linux não há nada para instalar além do OpenCV. Pelo README do PyThermalCamera:

sudo apt install python3-opencv v4l-utils
v4l2-ctl --list-devices
python3 tc001v4.2.py --device 0

O que acontece por baixo é interessante. A câmera anuncia dois formatos YUYV a 25 fps: 256 × 192 (só a imagem) e 256 × 384. No segundo, o quadro vem dividido ao meio: a metade de cima é a imagem em tons de cinza, a metade de baixo é a matriz de temperatura bruta, um valor de 16 bits por pixel. O programa lê os dois bytes de cada pixel, monta o valor e aplica a fórmula que LeoDJ descobriu por engenharia reversa e que está no código:

temperatura_C = valor_bruto / 64 − 273,15

Ou seja, cada unidade do sensor vale 1/64 de kelvin, cerca de 0,016 °C. Um pixel com valor bruto 19.000 está a 296,9 K, ou 23,7 °C; um MOSFET a 60 °C aparece como 21.322. É por isso que o software livre consegue mostrar máximo, mínimo e média da cena sem mandar um único comando à câmera: a temperatura já vem pronta no vídeo. O Thermal-Camera-Redux, em C/C++, faz a mesma leitura com 37 paletas e modo off-line, e é o mais leve para rodar num Raspberry Pi Zero 2 W.

Os 5 problemas mais comuns e a correção

  1. O celular não reage ao conectar. Pela ordem do FAQ oficial da TOPDON: confira se o LED azul acendeu; procure “OTG” nos ajustes do Android e ligue; confirme Android 6.0 ou superior; confira se o app tem as permissões; desconecte e reconecte. Celular sem OTG não funciona com nenhuma dessas câmeras.
  2. No Windows, o software livre parou de enxergar a câmera. O README do PyThermalCamera-Windows é taxativo: se você instalou o programa oficial da TOPDON antes, desinstale-o por completo, senão o sistema deixa de reconhecer a câmera como dispositivo UVC. Não dá para ter os dois no mesmo PC sem dor de cabeça.
  3. O P2Pro-Viewer trava ao abrir. Ele precisa mandar comandos USB, e para isso o autor manda instalar o libusb-win32 como filtro pelo Zadig, no item “USB Camera (Interface 0)”. E tem uma pegadinha documentada: o fluxo de vídeo precisa estar aberto antes de o script mandar comandos, ou a chamada ao libusb fica pendurada.
  4. A temperatura “está errada”. O FAQ oficial lista o que distorce a leitura: emissividade da superfície, temperatura ambiente refletida, distância (quanto mais longe, maior a atenuação; o app corrige até 5 m) e a faixa escolhida. Numa placa, metal polido e dissipador de alumínio mentem para baixo; o encapsulamento preto do chip é a superfície mais confiável. O estalo periódico é o obturador de calibração interna, e é normal.
  5. Dentro de máquina virtual a imagem vem corrompida. O autor do Thermal-Camera-Redux avisa que o vídeo USB se corrompe em convidados de VM. Rode no sistema nativo ou num Raspberry Pi.

Como usar na bancada para achar o curto

A rotina que funciona: alimente a placa por uma fonte de bancada com limite de corrente, deixe a câmera parada a uns 20 cm e observe os primeiros 10 segundos. O componente em curto esquenta antes de tudo; com a corrente limitada a 0,5 ou 1 A ele não queima, mas fica alguns graus acima dos vizinhos. Depois confirme com o multímetro no ponto apontado, pelo método do post como achar curto na placa do notebook. Na placa que só falha quente, grave a tela por alguns minutos: o capacitor ou a junta de solda que cede com a temperatura aparece no gráfico antes de o defeito se manifestar.

Perguntas frequentes

Funciona no iPhone? O TC001 não: o manual é explícito, só Android e Windows. O P2 Pro é vendido também numa versão com conector Lightning, com app próprio na App Store, segundo as fichas dos revendedores.

Precisa de driver no Windows? Não. A câmera é UVC e o Windows a trata como webcam. O que você instala é o programa (TCView ou um dos livres).

Dá para ver através de vidro ou plástico? Não. O FAQ da TOPDON lembra que o sensor mede só temperatura de superfície na faixa de 8 a 14 µm. Tire a tampa e aponte para a placa.

Qual comprar, TC001 ou P2 Pro? O sensor é da mesma classe; a diferença está no corpo (o TC001 pesa 30 g e vem com cabo de 50 cm; o P2 Pro é menor e, pelas fichas dos revendedores, vem com lente macro magnética) e no suporte: a TOPDON mantém o app atualizado (novembro de 2025) e tem programa de Windows oficial. Para bancada fixa, o TC001 com TCView é o caminho mais simples; para quem vai programar em Linux ou Raspberry Pi, tanto faz.

Onde comprar: as duas câmeras são vendidas no Brasil pelos revendedores oficiais e pela Amazon; o cabo de extensão USB-C ajuda a posicionar a câmera num tripé pequeno sobre a placa.

Como Associados da Amazon, recebemos por compras qualificadas feitas pelos links acima — você não paga nada a mais por isso, e ajuda o site a continuar gratuito.

Veredito honesto

Para quem repara placa, a câmera térmica de celular é a ferramenta que mais encurta o diagnóstico de curto depois da fonte com limite de corrente, e custa uma fração de uma câmera térmica de mão. A parte que ninguém conta: a TOPDON não publica versão nem checksum do TCView, o app do P2 Pro está parado desde março de 2024, e os programas livres mais completos são projetos de uma pessoa só, dois deles sem commit há mais de um ano. Funcionam, porque o formato do vídeo não muda, mas não espere suporte. No próximo guia, vamos fazer o que a câmera sozinha não faz: gravar a matriz de temperatura bruta no Linux e extrair, por script, o ponto mais quente de cada segundo.

Veja também

Quando a câmera apontar o componente quente e a pergunta virar “o que esse estágio da placa faz”, o Mapa da Placa é o nosso material de leitura de placa; vale conhecer.