Sensores são a porta de entrada da placa: enquanto o display mostra informação para fora, o sensor traz informação de fora para dentro. Temperatura, luz, corrente, presença, posição — tudo isso precisa virar uma coisa só antes de o processador entender: tensão.

Este capítulo fecha o par que a série abriu na parte anterior. Depois de ver como a placa mostra informação em displays LED, LCD e OLED, agora fazemos o caminho inverso: como cada sensor converte um fenômeno físico em sinal elétrico, o que existe entre o sensor e o chip, e — a pergunta que resolve o defeito — como saber se quem está mentindo é o sensor ou o circuito que lê o sensor.

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Sensores: três famílias e uma única missão

Existem centenas de sensores no mercado, mas para a bancada eles se organizam em três famílias, e saber em qual delas o componente está muda completamente a forma de testar:

A consequência prática é direta: o resistivo se testa com o multímetro na escala de ohms, o gerador exige medir milivolts com paciência, e o inteligente só responde se estiver bem alimentado — sem os volts certos no pino, ele fica mudo e parece queimado estando perfeito.

Temperatura: o sensor mais comum da bancada

Quase todo aparelho de potência tem pelo menos um sensor de temperatura, e ele responde por uma parcela enorme dos defeitos de “entra em proteção sozinho” e “ventoinha no máximo o tempo todo”.

NTC é o mais frequente: um resistor cuja resistência cai quando a temperatura sobe — o oposto do resistor comum de resistores: código de cores, série e paralelo. O valor de catálogo é sempre dado a 25 °C: um “NTC de 10 k” tem 10 kΩ a 25 °C e pode cair para algo em torno de 1 kΩ a 80 °C.

E aqui mora a primeira armadilha: essa queda não é uma reta. A curva é exponencial, descrita pelo parâmetro beta do componente. Por isso não existe regra de três para conferir leitura de NTC, e por isso trocar um de 10 k por um de 100 k faz o aparelho ler errado com tudo o mais intacto — a placa espera uma curva específica.

Sensores: curva experimental de resistência por temperatura de um termistor NTC, mostrando a queda exponencial da resistência
Curva real de um termistor NTC medida em laboratório: a resistência despenca de cerca de 158 Ω para menos de 20 Ω enquanto a temperatura sobe (o eixo está em kelvin — 290 K ≈ 17 °C e 353 K ≈ 80 °C). Repare que a queda é uma curva, não uma reta: é exatamente por isso que a placa precisa conhecer o modelo do sensor para converter resistência em graus. Gráfico: Giro720, Wikimedia Commons, CC BY 2.5.

Cuidado para não confundir com o NTC de partida. Aquele disco preto ou verde grandão na entrada da fonte, em série com a rede, não é sensor de nada: é limitador de corrente de partida, e já apareceu em as proteções da placa. Mesmo princípio físico, função completamente diferente — um mede, o outro trabalha.

PTC faz o contrário: a resistência sobe com a temperatura. Como sensor aparece em enrolamentos de motor e em proteção térmica; como componente de proteção, é o polyfuse que já vimos.

Termopar é a família dos geradores: dois metais diferentes unidos geram uma tensão que depende da diferença de temperatura entre a junta quente e a junta fria — dezenas de microvolts por grau no tipo K, o mais comum. É o sensor da estação de solda e da ponta de temperatura do multímetro. Sinal minúsculo tem duas consequências na bancada: qualquer mau contato desregula a leitura, e o circuito que lê precisa de amplificação e de compensação de junta fria.

Sensores integrados resolvem isso por dentro. Um LM35 entrega 10 mV por grau direto na saída — 250 mV significam 25 °C, e você confere com o multímetro em segundos. Um DS18B20 devolve o número já digitalizado pelo barramento, o que elimina o erro de leitura mas cria outro defeito: se a comunicação cair, o sistema não recebe “temperatura errada”, recebe nada, e costuma assumir o pior caso e entrar em proteção.

Luz: LDR, fototransistor e o sensor que todo controle remoto usa

O LDR é o sensor de luz mais didático que existe: um resistor cuja resistência cai quando a luz aumenta — no escuro pode passar de 1 MΩ e sob luz forte cai para centenas de ohms. É lento, leva dezenas de milissegundos para reagir, e por conter cádmio vem sendo evitado em produtos novos; ainda assim segue onipresente em iluminação e relés fotoelétricos.

Sensores: fotorresistor LDR de 25 mm com a trilha serpentina laranja de sulfeto de cádmio visível sob a janela de vidro
Um LDR visto de perto: aquela trilha laranja em zigue-zague sob o vidro é o material fotossensível, e o desenho serpenteado existe para ganhar comprimento — mais material iluminado, maior variação de resistência. Não há eletrônica nenhuma aí dentro: é literalmente um resistor que muda de valor com a luz. Foto: Suyash Dwivedi, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

O fototransistor e o fotodiodo são os substitutos rápidos e direcionais. Reagem em microssegundos, o que os torna obrigatórios em encoders, em sensores de fim de papel de impressora e em qualquer coisa que conte pulsos. É o mesmo princípio do optoacoplador de isolação, relés e optoacopladores — só que com o LED do outro lado do mundo, e não dentro do chip.

O receptor infravermelho do controle remoto confunde muita gente: ele não detecta “luz infravermelha”, detecta luz infravermelha piscando numa frequência específica, normalmente 38 kHz. É essa exigência que impede a lâmpada do teto e o sol de acionarem sua TV. Na bancada isso significa que testar o receptor com uma lanterna comum não prova nada — o certo é apontar o controle e ver o sinal na saída, ou usar a câmera do celular para confirmar que o LED do controle está mesmo piscando.

Corrente: três formas de medir sem interromper o circuito

Medir corrente é medir algo que atravessa, não algo que fica entre dois pontos. A placa usa três estratégias:

Resistor shunt. Um resistor de valor baixíssimo — na casa dos miliohms — no caminho da corrente. Pela Lei de Ohm de tensão, corrente e resistência, a corrente cria nele uma queda proporcional: 10 A em 10 mΩ produzem 100 mV. Simples e preciso, mas o sinal é pequeno e quase sempre pede um amplificador operacional logo em seguida.

Efeito Hall. Um chip que sente o campo magnético criado pela corrente, sem contato elétrico com ela. Dá isolação de graça e mede contínua e alternada, mas é sensível a campos vizinhos e tem erro de zero que varia com a temperatura — daí os casos de “medidor que marca corrente com o aparelho desligado”.

Transformador de corrente. Aquele anel por onde passa o fio da rede. Só funciona em corrente alternada e traz uma regra de segurança que não se negocia: nunca deixe o secundário aberto enquanto houver corrente no primário — a tensão induzida sobe a valores perigosos, capazes de furar o isolamento e dar choque. Secundário sempre em curto ou ligado à carga.

Presença e posição: do interruptor mecânico ao laser

A família mais heterogênea da lista, e a que mais gera chamado de assistência:

O que existe entre o sensor e o chip: o condicionamento

Aqui está a parte que quase todo tutorial pula e que responde pela maioria dos defeitos. Entre o sensor e o conversor analógico-digital de como o chip lê o mundo: ADC, PWM e periféricos existe quase sempre um pequeno circuito — e ele tem tantos modos de falha quanto o sensor.

Divisor de tensão. É o companheiro obrigatório de todo sensor resistivo. O NTC ou o LDR entra em série com um resistor fixo, e o chip lê o ponto do meio. Repare no que isso implica: aquele resistor fixo faz parte da medida. Se ele desandar de valor — e resistores de filme envelhecem para cima — o aparelho passa a ler temperatura errada com o sensor perfeitamente bom.

Amplificação. Sinal de termopar, de shunt e de célula de carga é pequeno demais para o ADC. Entra um amplificador, muitas vezes numa ponte de Wheatstone: quatro resistências em losango, com o sensor ocupando um dos braços, e o circuito lendo a diferença entre dois pontos em vez da tensão absoluta. É o arranjo das balanças.

Filtragem. Sensor mede sinal lento; ruído é rápido. Por isso quase todo pino de sensor tem um resistor e um capacitor formando o filtro passa-baixa de filtros: como o circuito escolhe as frequências que passam. Esse capacitor em curto trava a leitura num valor fixo; seco, deixa passar todo o ruído da placa e a leitura fica dançando.

Referência. O ADC compara a tensão do sensor com uma tensão de referência. Se a referência oscila, a leitura oscila junto mesmo com o sensor imóvel — é assim que tanta leitura errática nasce de um regulador cansado, e não do sensor. Vale revisitar reguladores e trilhos de tensão.

Família O que o sensor entrega O que costuma existir depois dele Como testar na bancada
Resistivo (NTC, LDR, extensômetro) Resistência variável Divisor de tensão ou ponte Ohmímetro fora do circuito + estímulo (calor, luz)
Gerador (termopar, piezo) Tensão muito pequena Amplificador e compensação Multímetro em milivolts, com paciência
Ativo analógico (LM35, Hall, shunt+amp) Tensão proporcional Filtro RC e ADC Medir a saída com alimentação presente
Digital (DS18B20, I2C, SPI) Número pronto Pull-ups e barramento Osciloscópio no barramento — ou está lá, ou não está
Contato (fim de curso, reed) Aberto ou fechado Pull-up e filtro anti-repique Continuidade acionando à mão

Mente o sensor ou o circuito que lê? A rotina de seis passos

Essa é a pergunta central de todo defeito de leitura, e ela se responde na ordem:

1. Confira a alimentação do sensor. Sensor ativo sem os volts certos no pino não é sensor: é um pedaço de plástico. Meça no próprio pino do componente, não na saída do regulador — a queda pode estar numa trilha ou num resistor de série.

2. Meça o sinal na saída do sensor. Em sensor analógico, a tensão tem que estar numa faixa plausível: nem colada no zero, nem colada na alimentação. Valor grudado num dos extremos quase sempre significa fio partido, sensor aberto ou sensor em curto.

3. Estimule o sensor e veja se o número se mexe. Este é o passo que decide o caso. Aqueça o NTC com o dedo ou com o ar da estação, tape o LDR com a mão, aproxime um ímã do reed, aperte a chave. Se o sinal muda e o aparelho não reage, o problema está depois do sensor. Se o sinal não muda, o problema é o sensor ou o caminho até ele.

4. Substitua o sensor por um valor conhecido. A jogada mais elegante da bancada: tire o NTC e ponha no lugar um resistor do valor que ele teria à temperatura ambiente, ou um potenciômetro. O aparelho passou a exibir a temperatura correspondente? O circuito de leitura está bom e o culpado era o sensor. Continuou errando? O defeito está no condicionamento.

5. Olhe o terra e a referência. Leitura que varia sozinha ou muda quando você toca na placa é sintoma de referência ruim, não de sensor ruim. Confira o retorno de terra do sensor e a estabilidade da referência do ADC — ruído entrando por acoplamento é o assunto de ruído e interferência.

6. Compare com outro canal. Dois sensores de temperatura num aparelho que passou a noite desligado têm que marcar praticamente o mesmo valor. Diferença grande nessa condição aponta o canal defeituoso sem nenhuma conta.

Sintomas e causas mais prováveis

Sintoma Causa mais provável
Ventoinha no máximo desde que liga, aparelho frio NTC aberto ou fio partido — a placa lê “quente demais” e protege
Aparelho entra em proteção térmica depois de minutos, mas está frio Sensor com mau contato, ou pasta/fixação solta fazendo ele ler o ar
Temperatura exibida sempre errada por um valor constante Resistor do divisor fora de valor ou sensor de modelo trocado
Leitura dançando sem parar Capacitor de filtro seco, terra ruim ou referência instável
Leitura travada num número fixo e redondo Capacitor do pino em curto, ou o chip nem está lendo o canal
Sensor digital “não existe” para o sistema Alimentação ausente, pull-up do barramento ou endereço em conflito
Toque fantasma em painel capacitivo Umidade na placa ou aterramento precário, não o sensor

Três erros que custam peça

Trocar o sensor sem conferir o divisor. É o erro número um em placa de fonte e de eletrodoméstico. O sensor é barato e a tentação de trocar por trocar é grande — só que, se quem está fora de valor é o resistor fixo do divisor, o sensor novo lê exatamente tão errado quanto o velho.

Medir sensor resistivo com o circuito ligado. O ohmímetro injeta corrente própria e disputa com o divisor; o número que aparece não é a resistência do sensor nem a do circuito. Para valor confiável: aparelho desligado e um terminal fora da placa.

Ignorar o autoaquecimento. A corrente que passa pelo NTC aquece o próprio NTC. Em circuito bem projetado ela é minúscula, mas quando alguém “melhora” o divisor com um resistor de valor menor, o sensor esquenta sozinho e passa a marcar acima do real de forma permanente.

Perguntas frequentes

Posso trocar um NTC de 10 k por um de 100 k?

Não. A placa converte resistência em graus usando a curva de um modelo específico. Com valor diferente o aparelho continua funcionando — e lendo errado o tempo todo, o que acaba em proteção indevida ou, pior, em ausência de proteção quando ela é necessária.

Como testo um NTC com o multímetro?

Meça a resistência com o componente frio e compare com o valor nominal, que vale a 25 °C. Depois aqueça com o dedo ou com o ar morno da estação: a resistência tem que cair de forma nítida e voltar ao esfriar. Resistência infinita, zero, ou um número que não se mexe com o calor condenam a peça.

O sensor está bom e a leitura continua errada. E agora?

Vá para o condicionamento nesta ordem: resistor fixo do divisor, capacitor de filtro do pino, trilha e conector até o chip, e por fim a referência do ADC.

Dá para testar um sensor de efeito Hall fora do aparelho?

Dá, e é fácil: alimente-o com a tensão indicada, meça a saída e aproxime um ímã — invertendo a face que você aponta para o componente, porque os sensores Hall de chaveamento respondem a apenas um dos polos. A saída tem que mudar de estado ou variar. Se não muda com nenhuma das duas faces, o componente está morto.

Por que o sensor de presença do banheiro não me vê quando fico parado?

Porque o PIR detecta variação de calor, não presença. Corpo parado vira parte do cenário térmico em poucos segundos e some da detecção. Não é defeito, é o princípio de funcionamento — e é por isso que ambientes que exigem detecção contínua usam sensor de micro-ondas ou ultrassônico.

Conclusão

Três ideias fecham este capítulo. Todo sensor faz a mesma coisa: transforma um fenômeno físico numa grandeza elétrica que o chip consiga comparar com uma referência. Entre o sensor e o chip existe um circuito de condicionamento que erra tanto quanto o sensor — e é mais barato de consertar. E a que resolve o caso na prática: estimule o sensor e veja se o sinal se mexe; substitua-o por um valor conhecido e veja se a leitura acompanha. Esses dois testes dizem, em minutos, de que lado está a mentira.

No próximo capítulo a série volta para a energia, mas pelo lado que mais chega à bancada hoje: baterias e carregamento. Como as células de lítio armazenam energia, o que o circuito de proteção e o BMS fazem por trás do conector, por que uma bateria “morta” às vezes está apenas desligada pela própria proteção, e como diagnosticar o aparelho que não carrega sem trocar a peça mais cara por chute.

Onde comprar

Para praticar com sensores na bancada:

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